quinta-feira, 19 de maio de 2005

A cidade das torres - San Gimignano


Em plena província da Toscana surge-nos San Gimignano, uma pequena cidade entre muralhas que é também um dos polos turísticos mais concorridos desta região.

O local está organizado para acolher os visitantes, há que estacionar num parque municipal e apanhar um minibus até às portas da cidade. Funciona bem, mas faz-nos logo antever que se trata de um sítio demasiadamente turístico, nada parecido com os locais tranquilos que encontramos ao longo da Toscana… mas a silhueta da cidade vista de fora faz-nos acreditar que se trata de um lugar muito especial.

Quando atravessamos os portões das muralhas confirmamos a presença de um mar de gente, de italianos a vários europeus, de americanos a japoneses, vão enchendo as ruas e praças empedradas de uma cidade que mais nos parece uma aldeia medieval, como tantas outras na Toscana, mas esta com uma marca arquitetónica bem distinta, que lhe é dada pelo conjunto de torres que se erguem em cada recanto da cidade e que são o seu ex-libris.

Atualmente existem 14 torres, mas alguns historiadores vêm referindo que, na idade-média, terão existido um total de 72. De qualquer forma, tanto no passado como na atualidade, San Gimignano é definitivamente a cidade das torres.

As maiores são a torre de La Rognosa, com cerca de 50m de altura, que é também a mais antiga da cidade e que era utilizada como prisão e a Torre Grossa, com 54m, localizada na Piazza Duomo, ao lado do Palazzo Nuovo del Podestà.

A visita à cidade torna-se algo cansativa, como sempre acontece em locais muito concorridos, numa autêntica romaria que nos faz percorrer os empedrados que ligam cada uma das praças, onde se erguem cada uma das suas torres, passando pelos locais principais, como a Piazza Duomo, o centro político e religioso da cidade ou a Piazza della Cisterna, com o seu poço, que é o principal ponto de encontro de turistas, que costumam atirar moedas, como na Fontana di Trevi, em Roma.

Depois disso, e para desanuviar um pouco da confusão, resolvemos fugir da multidão, saindo da cidade a pé, até nos afastarmos algumas centenas de metros num passeio tranquilo, entrando de novo na Toscana mais rural, e deixando atrás uma imagem genuína desta cidade, com a sua silhueta marcada pelas 14 torres medievais, que fazem de San Gimignano a mais bela cidade das torres de que tenho memória.

Carlos Prestes

quarta-feira, 18 de maio de 2005

Uma Toscana mais profunda


Quando percorremos a região da Toscana optámos pelas estradas secundárias que nos levaram entre paisagens rurais, intercaladas por aldeias de influência etrusca, num ambiente de um imaginário quase medieval . . . quisemos sempre ir parando vezes sem conta com o pretexto de mais uma foto, mas ficando cada vez mais tempo em cada paragem, para apreciar convenientemente aquele ambiente inspirador que nos ia envolvendo.

Fomos seguindo ao longo de extensos campos verdejantes, por vezes pontilhados pelos enormes rolos de feno seco, e encontrámos sempre as vinhas, imensos campos de vinha, quase sem fim, que são a imagem de marca desta região de Itália, sobretudo nas chamadas terras de Chianti, onde se produz o afamado vinho com o mesmo nome.

É esta a paisagem típica da Toscana, uma encosta com extensos campos de vinha e, ao longe, uma casa senhorial, quase sempre assinalada pelas linhas de ciprestes ao longo dos caminhos de acesso.

Mas para além desta beleza mais comum, por vezes entramos numa Toscana mais profunda, sem o estereotipo das vinhas, ainda com campos cultivados, mas marcados pelos traços de outras culturas, como esta colina avermelhada da argila lavrada, em contraste com o amarelo-torrado das plantações de cereais já maduros, com uma beleza sublime que nos surgiu de forma surpreendente numa das estradas percorridas.

A paisagem é diferente, mas mantêm-se os traços que nos fazem sentir o ambiente da Toscana... onde toda a contemplação é marcada por um silêncio celestial que nos atordoa, e pelo poder dos aromas, da terra, das plantas, dos campos cultivados, cheiros que se tornam ainda mais intensos e marcantes num final de tarde de Primavera, como este.

Carlos Prestes
 

segunda-feira, 16 de maio de 2005

La piazza del Palio - Siena


Entrar em Siena é viajar no tempo até à idade média. Segundo os registos históricos, a atual cidade, que é o principal centro urbano da zona sul da Toscana, mantém ainda um aspeto semelhante ao dos séculos XIII e XIV. 

E essa preservação do aspeto medieval, mantendo a arquitetura original devidamente reabilitada e conferindo à cidade uma beleza singular, é também o principal atrativo que leva a este centro da Toscana dezenas de milhares de turistas todos os anos... mas esse é sempre o grande problema das mais bonitas cidades italianas.

Uma das principais atrações locais é a catedral, Il Duomo di Siena. Construída entre os séculos XII e XIII, é um exemplo típico da arquitetura gótica italiana, com uma fachada majestosa e um interior com enorme riqueza patrimonial. É feita em mármore de Carrara com tonalidades contrastantes, ostenta pavimentos artísticos em mosaico, afrescos nos tetos e nas abóbadas e várias esculturas dos mais conceituados artistas da época. 

Mas o que realmente me entusiasmou na visita ao interior desta catedral foi a possibilidade de subir até ao alto da sua torre e contemplar daí toda a cidade, as suas ruas e praças, os telhados dos seus edifícios, numa paisagem onde a presença nefasta dos turistas se dissipa, o burburinho que eles provocam desaparece e ficamos ali, deslumbrados, a olhar em volta, com a certeza de que viajámos mesmo no tempo a caminho da idade média. E da vasta panorâmica que se observa lá do alto, destacava-se o mais importante local de Siena, a Piazza del Campo, com o seu símbolo maior, a imponente a Torre del Mangia, que é como um posto de vigia que protege toda a cidade.
Em qualquer caminhada pelas ruas de Siena, entre lojas, restaurantes ou gelatarias, o destino será invariavelmente o mesmo, a Piazza del Campo, para onde todos os caminhos convergem. Por isso, acabámos naturalmente por lá chegar e por lá nos deixámos ficar, até que a noite caísse e os turistas começassem a abandonar o local. É essa a altura em que a praça mais nos cativa, quando a cidade se torna genuína e conseguimos observar um palpitar diferente, mais inspirador.

Pelas ruas da cidade é comum encontrar bandeiras e faixas coloridas com os brasões de cada bairro ou “contrade” (que é como se designam os bairros de Siena), o que acentua ainda mais o ambiente ancestral envolvente e aquele imaginário que associamos aos torneios medievais, talvez por força de tantos filmes de época a que assistimos. 

Esse hábito de engalanar as ruas de cada bairro está ligado ao evento maior da cidade, o Palio di Siena, a famosa e emocionante corrida de cavalos, num regresso quase literal à idade média. O Palio é feito duas vezes por ano na Piazza del Campo, a 2 de julho e a 16 de agosto, desde o século XVII. Participam os 17 bairros da cidade (os tais contrades), cada um deles desfilando pela piazza com as suas cores, as suas bandeiras, o seu brasão e entoando o seu hino. Mas na corrida, propriamente dita, participam apenas 10 cavalos e cavaleiros, de cada um dos 10 bairros escolhidos por sorteio. Ganha o cavalo que chegar primeiro após três voltas ao redor da praça, mesmo que o jóquei já tenha caído e o cavalo chegue sozinho. A corrida dura apenas 90 segundos, mas a celebração do evento prolonga-se por várias semanas.

Na minha primeira visita à cidade de Siena coincidiu ter lá estado no dia 15 de agosto, ou seja, um dia antes do Palio (de que eu nem nunca tinha sequer ouvido falar). Por isso a cidade estava naturalmente diferente, com os habitantes locais em grande número e numa azáfama descomunal, as ruas enfeitadas com bandeiras e faixas, o que dava à cidade uma imagem ainda mais medieval. 


E é este mesmo local, por onde correram desenfreadamente cavalos e cavaleiros nas várias celebrações do Palio, durante séculos, que agora nos acolhe. E é por lá que permanecermos horas sem conta, a contemplar os traços de uma Idade Média tão presente, e a sentir o palpitar da atual cidade.  

E foi nessa mesma praça que haveria de me deleitar ao observar a imagem enternecedora da minha filha Martinha, ainda bebé, a ensaiar os seus primeiros movimentos para gatinhar, naquele empedrado quente e acolhedor e carregado de tantos anos de uma história, que marca a história desta cidade.           

Carlos Prestes


domingo, 15 de maio de 2005

Dolce fare niente - Toscana


Viajar por Itália traz-me sempre uma sensação muito agradável, como que um conforto de quem se sente em casa. Talvez pelas paisagens ou pelos hábitos locais, certamente pelas pessoas e por aquela língua cantada... mas também pelos paladares, pelos aromas e por todo um ambiente, que é tão cativante, e que se percebe em cada detalhe desta terra. 

É provavelmente o país que melhor nos conseguirá proporcionar aqueles prazeres que só em Portugal costumamos experimentar. E é na Toscana, a província rural mais encantadora de toda a Itália, que essas semelhanças se tornam mais evidentes. 

E é tão fácil deixarmo-nos envolver pelo gozo de uma vida prazenteira que tanto nos agrada. Do almoço prolongado à sombra de um alpendre que nos refresca do calor ardente. Da comida deliciosa, dos vinhos, dos queijos, dos sabores condimentados com ervas mediterrâneas. Do ecoar da música arrebatadora que se ouve em fundo, a ária de uma ópera italiana, que só ali me faz sentido. 

E há sempre o poder esmagador das imagens, cada ângulo abre-nos um novo cartão postal que nos deslumbra. Um horizonte de tons dourados de um campo de trigo maduro, salpicado por enormes rolos de feno seco, que ali repousam. O verde intenso de uma vinha infinita junto ao vermelho vivo dos campos de papoilas. Ou uma casa senhorial, la casa dei padroni, sempre marcada pela linha de ciprestes que assinala o carreiro de acesso. Ou até uma fortaleza medieval, com séculos de histórias de combates sangrentos na proteção da aldeia, e que repousa agora tranquila, do alto da sua colina. 
E é mesmo assim, quando descobrimos a Toscana, esse lugar tão mágico e acolhedor, apetece-nos ficar sempre mais um bocadinho, num dolce fare niente, para um último copo de Chianti com uma côdea estaladiça de pão molhado em azeite... e para um último olhar em volta, confirmando a imagem da perfeição. 

Carlos Prestes 

domingo, 14 de março de 2004

Da janela vê-se o Corcovado, o Redentor, que lindo!

Ao fim de algum tempo no Rio de Janeiro chegou a hora de subir ao Morro do Corcovado, apreciar de perto o seu Cristo Redentor e contemplar as paisagens magnificas que aquele lugar tem para oferecer. 

O Corcovado é um morro com 709m de altitude, localizado por detrás da zona Sul da cidade, entre o Botafogo e a Lagoa Rodrigo de Freitas, e o seu nome vem de uma aparente semelhança com uma “corcunda”. É indiscutivelmente o principal ponto turístico do Rio, não tanto pelo próprio morro, mas antes pela estátua de Jesus Cristo construída no seu topo . . . o Cristo Redentor, que abre os braços para a cidade como se a abraçasse. 

Aquela estátua é o grande ícone da cidade maravilhosa e está intrinsecamente ligada ao seu imaginário. Surge nos folhetos turísticos, nas imagens em bilhetes postais ou em tantas músicas onde é figura principal, sobretudo nos sambas cariocas ou em canções do universo Bossa Nova, onde o morro ou o seu Cristo, são cantados como uma espécie de padroeiro protetor da cidade. 

Mas para nós, portugueses, esta estátua será sempre uma versão brasileira do nosso Cristo Rei, tais são as semelhanças. E no meu caso, em particular, que sou um apaixonado pela Bossa Nova e vejo diariamente da minha janela, a escassas centenas de metros, a estátua do Cristo português, chego a ter a ilusão de confundir estes dois símbolos e as cidades que ambos abraçam . . . e recordo tantas vezes aquela bossinha inspiradora, onde Tom Jobim dizia: “Da janela vê-se o Corcovado, o Redentor, que lindo!” (Corcovado - Cover by Carlos Prestes). 
Mas voltando ao Rio, o projeto do Cristo Redentor teve o seu embrião ainda no século XIX, no ano de 1824, com a construção de um bonde, o chamado "Trem do Corcovado", que sobe até o topo da montanha. Bem mais tarde, depois de um concurso de ideias, foi escolhido o modelo de uma estátua inspirada na corrente europeia art déco, concebida pelo engenheiro brasileiro Heitor da Silva Costa, em parceria com o escultor francês Paul Landowski. A estátua foi construída em betão armado e revestida em pedra-sabão, uma rocha metamórfica que se encontra muito no estado de Minas Gerais. Os trabalhos decorreram até à inauguração, no ano de 1931. (Percebe-se, portanto, que o nosso Cristo, inaugurado apenas em 1959, será a réplica e não o original). 

Em 2007, o Cristo Redentor foi oficialmente reconhecido pelo mundo, ao ser considerado uma das Sete Maravilhas, a par de alguns dos grandes ícones mundiais, como o Machu Pichu ou a Grande Muralha da China. 

E de novo no alto do Corcovado, enquanto me perdia naquela paisagem, que alcança toda a cidade, uma imagem fez-me lembrar que o Brasil é também o país do futebol. Foi a figura do imponente estádio Maracanã, que surge do lado Norte do morro e é um dos símbolos indiscutíveis da cidade. Foi construído para o campeonato do Mundo de 1950 e foi logo palco de uma das maiores desilusões coletivas do povo brasileiro, com a derrota na final frente ao Uruguai, com 200 mil pessoas no estádio, num triste episódio que ficou conhecido como Maracanaço. Na altura da nossa viagem o estádio do Maracanã estava já bastante desatualizado face às exigências atuais de conforto e segurança. Mas nos anos seguintes o espaço haveria de ser totalmente reformado para a Copa do Mundo de 2014 e para as Olimpíadas de 2016. 

Mas depois da histórias que aquele local nos trás à memória, falta-me ainda mencionar os instantes mais decisivos da nossa visita. Quisemos chegar cedo para evitar uma maior concentração de turistas, embora se perceba que o espaço está preparado exclusivamente para esse tipo de visitas . . . os turistas chegam, tomam posição nos pontos de observação, tiram fotografias e partem. E era mais ou menos isso que eu contava fazer, mas a experiência acabou por me tocar de uma forma mais intensa. 

Quando nos conseguíamos fixar num local onde era possível contemplar a paisagem envolvente em toda a sua dimensão, o espetáculo começou e prendeu-nos de uma forma muito para além do que estaríamos à espera. 

A sensação era quase vertiginosa e arrepiante, senti-me como que atraído para aquele abismo que se abria à minha frente, sem qualquer defesa ou resguardo, criando uma sensação de cumplicidade para com a cidade. E já não era possível abandonar aquele lugar, tinha de exorcizar toda a emoção que de repente se acumulava. Precisava de mais tempo, um tempo para uma entrega total que a cidade pedia. 

Faltou-me o ar, faltaram-me as forças, senti arrepios, chegaram-me as lágrimas aos olhos, tanta vertigem e tanta comoção. Deixou de nos importar quem eram os outros que ali estavam naquele miradouro, já não nos preocupava sequer a presença do nosso taxista, esperando por nós, deixámos de ter a noção do tempo. Ficámos sozinhos, num silêncio profundo, apesar de tanta gente barulhenta ao nosso lado, e continuámos deslumbrados por aquela cidade que, dali, era ainda mais maravilhosa e “cheia de encantos mil” do que alguma vez a tinha imaginado. A sua Lagoa, no coração da zona Sul, os bairros chiques de Ipanema e Leblon, fixando a linha onde acaba a cidade e começa o mar, as praias do Botafogo e do Flamengo, o centro histórico, e os muitos outros morros que enfeitam a cidade, alguns ocupados por extensas favelas, e ainda a presença imponente do Pão de Açúcar, como um farol que assinala a chegada ao mar da baía da Guanabara
Alguns dias depois, enquanto atravessava uma última vez a cidade do Rio, já de táxi, a caminho do aeroporto, sabiamente batizado como “Aeroporto António Carlos Jobim” e, talvez por isso mesmo, olhando em volta para a cidade que deixávamos para trás, imaginei ouvir mais uma vez, talvez passasse no rádio do carro ou talvez fosse só imaginação minha, aquele som "balançado que é mais que um poema, a coisa mais linda, mais cheia de graça . . . que vem e que passa . . . e fica mais linda, por causa do amor”. 

Carlos Prestes 
Março de 2004

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sábado, 11 de maio de 2002

Uma (des)agradável companhia no Índico - Maldivas

Numa visita ao arquipélago das Maldivas não podíamos deixar de aproveitar a oportunidade para explorar as águas transparentes e quentes do Oceano Índico e, por isso, resolvemos fazer uma semana completa com mergulhos diários por entre centenas de peixes coloridos, como se andássemos, literalmente, à procura de Nemo. 

Depois de um hidroavião nos ter deixado numa das ilhas paradisíacas do arquipélago, deixámo-nos por lá ficar, nos habituais bungalows, que se escondem entre os coqueiros e o areal, aproveitando o namoro de uma lua-de-mel, nestas praias de águas quentes e transparentes e areias brancas de coral. 

A praia é a essência destas ilhas. Até posso admitir que nem todos os visitantes sejam fãs de mergulho, que é algo muito específico e que obriga a alguma destreza e até coragem, mas uma pessoa que não goste de praia, tem de fazer um favor a si própria, e nunca ir às Maldivas. Digo isto, que parece quase uma evidência de La Palice, mas porque tenho ouvido relatos de pessoas que escolhem este destino, sobretudo em lua-de-mel, mas que depois referem que não gostam muito de praia . . . que a areia atrapalha e que o sol e a água são um tremendo incómodo. E há quem diga que nem saiu da piscina . . . meu Deus, que sacrilégio!!! Como é possível alguém preferir uma piscina em vez do mar azul-turquesa, com águas a 28ºC, e uma areia finíssima de um branco que até encandeia. Que praias magníficas estas . . . queria poder viver aqui uma eternidade. 

Mas nós somos ambos fãs incondicionais de tudo aquilo que estas ilhas têm para oferecer e, por isso, viemos para o sítio certo e na altura certa. Adoramos estar na praia, na areia ou no mar, e ali estava aquela praia encantadora com águas mornas e cristalinas. Somos fãs de mergulho e, bem à nossa frente, tínhamos o fundo do mar mais belo e mais rico que alguma vez tínhamos visto. E é claro que adoramos namorar, e o namoro sob aquele sol e aquela lua que, para nós, era uma lua de mel, foi ainda mais encantador, por todo o ambiente de sonho que nos rodeava. 

Muito para além das suas praias magníficas, o arquipélago das Maldivas é sobretudo conhecido como um dos destinos mais desejados entre a comunidade de mergulho. Com recifes coloridos, peixes pequenos de todas as formas e todas as cores, e peixes grandes, dos mais assustadores aos mais pacíficos, e tudo está ali bem perto e ao nosso alcance. Basta entrarmos naquele admirável mundo e durante os minutos (perto de uma hora) em que o oxigénio nos vai deixando respirar, sentimo-nos como se pertencêssemos àquele universo deslumbrante das profundezas do Índico. 

Fizemos vários mergulhos, uns mais madrugadores e outros aos finais de tarde, mas o primeiro contacto que tivemos com este mar maravilhoso foi a explorar o próprio recife da ilha do nosso hotel, fazendo apenas snorkeling, isto é, nadando com máscara, respirador e barbatanas. 

Tínhamos chegado nessa mesma manhã e apanhámos a embarcação nos iria deixar sobre o recife para 40 minutos de surpresas. No último momento, antes de deixarmos o barco, e convém dizer que éramos apenas nós dois e o rapazinho que manobrava o barco e que por lá ficou à nossa espera, e que nos fez uma breve explicação: Comecem por aqui, sobre o recife, que encontram corais de todas as cores, muitos peixes coloridos e moreias. Vão depois chegando até ao limite do recife onde o mar passa a ser mais fundo, e aí começam a aparecer alguns peixes maiores . . . sobretudo tartarugas e alguns tubarões!!! E esse final da frase ficou a ecoar na minha cabeça e já não consegui ouvir mais nada. 

Mas como não somos de fugir, lá fomos, mar adentro. Começámos por explorar o recife e fomos avançando à medida que encontrávamos alguns cardumes, ainda muito à superfície, daqueles bem bonitos e coloridos. E por fim a profecia cumpriu-se, já próximo do limite da barreira de coral, onde se formam falésias de 30 ou mais metros de profundidade, as espécies maiores sobem até ao recife e ali estavam eles. 

Primeiro uma tartaruga, que é uma fofura, face a outras expetativas mais gravosas. E enquanto perseguíamos a dita tartaruga, num instante em que o sol deve ter ficado encoberto por alguma nuvem escura, só para tornar o cenário ainda mais medonho - ou foi só impressão minha - tivemos a (des)agradável companhia do anunciado tubarão. 
Era um Blacktip Reef Shark, uma das espécies de tubarões que por ali circulam e que se identificam pela ponta preta da barbatana. Segundo dizem, é dos mais inofensivos, embora este me parecesse bem encorpado e com cara de mau . . . há uma questão que é pertinente, num mar tão cheio de alimento, para que é que se iriam meter com um ser humano, tão grande e desajeitado? Mas essa é uma pergunta a que só cada tubarão poderá responder em cada situação, e eu prefiro não esperar pela resposta. 

E foi assim, mal chegámos àquela praia e já tínhamos apanhado um tremendo susto e estávamos já com a adrenalina a mil. E como nestas situações raramente queremos fugir da experiência e da excitação, muito pelo contrário, voltámos a repetir outras incursões no mundo azul que se esconde sob o arquipélago, enfrentando de novo a exaltação do desconhecido, com novas surpresas e muitos outros tubarões. 

Carlos Prestes 
Maio de 2002

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sexta-feira, 10 de maio de 2002

Voando sobre um país de mil ilhas - Maldivas

Que melhores férias se podem fazer do que a nossa própria lua-de-mel, uma viagem de sonho que queremos compartilhar com quem escolhemos para dividir toda a nossa vida. E que melhor ambiente para esse momento do que um lugar tão sedutor como este . . . o arquipélago das Maldivas. 

Foi assim que nos pusemos ao caminho, num voo de quase 10 mil km até à cidade de Malé. Íamos passar pouco mais de uma semana, aproveitando as praias de areia branca que formam o território das Maldivas, com as águas transparentes e quentes do Índico, pintadas de um azul-turquesa quase ofuscante.

Mas queríamos também aproveitar para fazer uma semana completa com mergulhos diários, que dariam uma dimensão muito especial a esta viagem, pois não é com frequência que encontramos um fundo do mar tão extraordinário como este. 

A República das Maldivas é um pequeno país insular localizado em pleno Oceano Índico, a Sudoeste do Sri Lanka e da Índia. É constituído por 26 atóis onde emergem quase 1200 ilhas, das quais apenas cerca de 200 são habitadas, mas, mesmo essas, a maior parte não tem qualquer povoação local residente. Funcionam apenas como ilhas-hotel, totalmente ocupadas e geridas como resorts, e muitos deles são bastante luxuosos e aproveitam convenientemente estas águas fantásticas, criando bungalows de alto luxo, sobre estacas de madeira, que avançam pelo mar adentro. 

A ilha do nosso hotel ficava a 100 km de Malé e, por isso, fizemos toda a viagem em hidroavião, percorrendo essa distância a baixa altitude . . . e foi um enorme o privilégio, ter podido sobrevoar aqueles locais extraordinários, com paisagens que quase nos pareciam irreais.
O voo durou cerca de uma hora, apenas com algumas amaragens para deixar passageiros, até chegarmos ao nosso hotel . . . a nossa ilha, a escolhida de entre todo um país de mil ilhas, aquela que seria o nosso porto de abrigo e o palco do nosso encantamento.

Carlos Prestes