sábado, 21 de maio de 2005

A torre inclinada de Pisa


A Norte da região da Toscana encontramos um dos destinos imperdíveis de Itália, não porque seja um lugar fascinante e que nos apaixone, mas apenas por ser um daqueles locais que toda a gente tem que visitar uma vez na vida… e este local é Pisa, ou melhor, a torre de Pisa… porque é só o que visitamos nesta cidade toscana, um imenso relvado, a Piazza dei Miracoli, com a Catedral de Santa Maria da Assunção, o Duomo da cidade e, claro, com o seu campanário, uma torre inclinada que todos conhecem como Torre de Pisa

Depois de percorrermos a Toscana fica-nos a ideia de que já vimos tanto, que esta torre já não acrescentaria grande coisa… mas há o pormenor desta ter sido mal construída ou não ter sido devidamente acautelado o comportamento dos seus solos de fundação. Um erro, de cálculo ou de execução, que fez desta construção deficiente uma das torres mais famosas do mundo.

Depois houve uma intervenção providencial que fez com que a torre não tivesse caído nem tivesse sido recolocada na vertical, ficou exatamente com tinha de ficar, estável mas inclinada, para assim continuar a receber os milhões de turistas que a visitam.

E, por isso, lá vamos todos em romaria visitar a torre… muitos japoneses, claro há japoneses por todo o lado… mas nós também lá vamos. E todos nós, tal como os japoneses, tiramos a fotografia da praxe (de que vos vou poupar nesta publicação) com a mão a amparar o vazio, para que na foto dê a ilusão de que é a pessoa fotografada que está a impedir que a torre caia.

Passámos algum tempo no relvado em torno do Duomo e da torre, mas não há magia… assume-se o chip de quem está num parque de diversões e, no final, quase que acabamos por ficar com os olhos em bico.

Será uma visita imperdível?... sim, talvez seja, acho que se justifica o desvio para fazer uma visita rápida, mas só uma única vez na vida para ver como é que é esta torre que quer desafiar as leis da gravidade… e fica visto!

Carlos Prestes

sexta-feira, 20 de maio de 2005

Piazzale Michelangelo – Firenze


Ao terceiro dia na Toscana chegámos finalmente a Florença, a grande cidade da região e um dos principais centros culturais e artísticos de Itália, considerada como a capital do Renascimento.

Para além dos habituais percursos pela cidade, que são naturalmente recomendáveis, existe um único lugar imperdível na cidade de Florença: a Piazzale Michelangelo… uma praça em forma de balcão que se ergue no alto da colina ao Sul do centro histórico, e que funciona como um dos miradouros mais extraordinários em que já estive.

Na subida até alcançamos o miradouro não imaginamos que vamos encontrar uma vista tão compensadora, mas quando chegamos, abre-se à nossa frente a imagem do próprio Renascimento, um autêntico museu vivo com algumas das preciosidades da história de arte mundial… a paisagem, ainda com os traços medievais, das margens do rio Arno, com a magnífica Ponte Vecchio - o Palazzo Vecchio, mais uma construção medieval, com a imensa Torre de Arnolfo - ou o Duomo de Santa Maria del Fiore, a Catedral da cidade, com a sua cúpula majestosa, com sinais da preciosidade arquitetónica do Renascimento.

Tudo isto surge ao nosso alcance numa única imagem como quem mergulha num extraordinário cartão postal.

Mas não basta visitar este magnífico miradouro uma única vez, é também imprescindível voltar lá durante a noite. Depois do pôr-do-sol as cidades adquirem uma outra face, como se fossem lugares diferentes, mais intimistas e mais acolhedoras, sem a amálgama impessoal dos muitos turistas que as afogam durante o dia.

E é assim, quase em estado natural, que encontramos a cidade de Florença quando a contemplamos durante a noite da Piazzale Michelangelo, a mesma beleza monumental, mas agora sem o ruido e a azáfama habituais de todos os dias, revelando uma pureza que é quase arrepiante.


Florença só é a cidade que é porque pode ser contemplada da Piazzale Michelangelo, de uma forma tão poética, que é como um fresco de um dos seus grandes mestres.

quinta-feira, 19 de maio de 2005

A cidade das torres - San Gimignano


Em plena província da Toscana surge-nos San Gimignano, uma pequena cidade entre muralhas que é também um dos polos turísticos mais concorridos desta região.

O local está organizado para acolher os visitantes, há que estacionar num parque municipal e apanhar um minibus até às portas da cidade. Funciona bem, mas faz-nos logo antever que se trata de um sítio demasiadamente turístico, nada parecido com os locais tranquilos que encontramos ao longo da Toscana… mas a silhueta da cidade vista de fora faz-nos acreditar que se trata de um lugar muito especial.

Quando atravessamos os portões das muralhas confirmamos a presença de um mar de gente, de italianos a vários europeus, de americanos a japoneses, vão enchendo as ruas e praças empedradas de uma cidade que mais nos parece uma aldeia medieval, como tantas outras na Toscana, mas esta com uma marca arquitetónica bem distinta, que lhe é dada pelo conjunto de torres que se erguem em cada recanto da cidade e que são o seu ex-libris.

Atualmente existem 14 torres, mas alguns historiadores vêm referindo que, na idade-média, terão existido um total de 72. De qualquer forma, tanto no passado como na atualidade, San Gimignano é definitivamente a cidade das torres.

As maiores são a torre de La Rognosa, com cerca de 50m de altura, que é também a mais antiga da cidade e que era utilizada como prisão e a Torre Grossa, com 54m, localizada na Piazza Duomo, ao lado do Palazzo Nuovo del Podestà.

A visita à cidade torna-se algo cansativa, como sempre acontece em locais muito concorridos, numa autêntica romaria que nos faz percorrer os empedrados que ligam cada uma das praças, onde se erguem cada uma das suas torres, passando pelos locais principais, como a Piazza Duomo, o centro político e religioso da cidade ou a Piazza della Cisterna, com o seu poço, que é o principal ponto de encontro de turistas, que costumam atirar moedas, como na Fontana di Trevi, em Roma.

Depois disso, e para desanuviar um pouco da confusão, resolvemos fugir da multidão, saindo da cidade a pé, até nos afastarmos algumas centenas de metros num passeio tranquilo, entrando de novo na Toscana mais rural, e deixando atrás uma imagem genuína desta cidade, com a sua silhueta marcada pelas 14 torres medievais, que fazem de San Gimignano a mais bela cidade das torres de que tenho memória.

Carlos Prestes

quarta-feira, 18 de maio de 2005

Uma Toscana mais profunda


Quando percorremos a região da Toscana optámos pelas estradas secundárias que nos levaram entre paisagens rurais, intercaladas por aldeias de influência etrusca, num ambiente de um imaginário quase medieval . . . quisemos sempre ir parando vezes sem conta com o pretexto de mais uma foto, mas ficando cada vez mais tempo em cada paragem, para apreciar convenientemente aquele ambiente inspirador que nos ia envolvendo.

Fomos seguindo ao longo de extensos campos verdejantes, por vezes pontilhados pelos enormes rolos de feno seco, e encontrámos sempre as vinhas, imensos campos de vinha, quase sem fim, que são a imagem de marca desta região de Itália, sobretudo nas chamadas terras de Chianti, onde se produz o afamado vinho com o mesmo nome.

É esta a paisagem típica da Toscana, uma encosta com extensos campos de vinha e, ao longe, uma casa senhorial, quase sempre assinalada pelas linhas de ciprestes ao longo dos caminhos de acesso.

Mas para além desta beleza mais comum, por vezes entramos numa Toscana mais profunda, sem o estereotipo das vinhas, ainda com campos cultivados, mas marcados pelos traços de outras culturas, como esta colina avermelhada da argila lavrada, em contraste com o amarelo-torrado das plantações de cereais já maduros, com uma beleza sublime que nos surgiu de forma surpreendente numa das estradas percorridas.

A paisagem é diferente, mas mantêm-se os traços que nos fazem sentir o ambiente da Toscana... onde toda a contemplação é marcada por um silêncio celestial que nos atordoa, e pelo poder dos aromas, da terra, das plantas, dos campos cultivados, cheiros que se tornam ainda mais intensos e marcantes num final de tarde de Primavera, como este.

Carlos Prestes
 

segunda-feira, 16 de maio de 2005

La piazza del Palio - Siena


Entrar em Siena é viajar no tempo até à idade média. Segundo os registos históricos, a atual cidade, que é o principal centro urbano da zona sul da Toscana, mantém ainda um aspeto semelhante ao dos séculos XIII e XIV. 

E essa preservação do aspeto medieval, mantendo a arquitetura original devidamente reabilitada e conferindo à cidade uma beleza singular, é também o principal atrativo que leva a este centro da Toscana dezenas de milhares de turistas todos os anos... mas esse é sempre o grande problema das mais bonitas cidades italianas.

Uma das principais atrações locais é a catedral, Il Duomo di Siena. Construída entre os séculos XII e XIII, é um exemplo típico da arquitetura gótica italiana, com uma fachada majestosa e um interior com enorme riqueza patrimonial. É feita em mármore de Carrara com tonalidades contrastantes, ostenta pavimentos artísticos em mosaico, afrescos nos tetos e nas abóbadas e várias esculturas dos mais conceituados artistas da época. 

Mas o que realmente me entusiasmou na visita ao interior desta catedral foi a possibilidade de subir até ao alto da sua torre e contemplar daí toda a cidade, as suas ruas e praças, os telhados dos seus edifícios, numa paisagem onde a presença nefasta dos turistas se dissipa, o burburinho que eles provocam desaparece e ficamos ali, deslumbrados, a olhar em volta, com a certeza de que viajámos mesmo no tempo a caminho da idade média. E da vasta panorâmica que se observa lá do alto, destacava-se o mais importante local de Siena, a Piazza del Campo, com o seu símbolo maior, a imponente a Torre del Mangia, que é como um posto de vigia que protege toda a cidade.
Em qualquer caminhada pelas ruas de Siena, entre lojas, restaurantes ou gelatarias, o destino será invariavelmente o mesmo, a Piazza del Campo, para onde todos os caminhos convergem. Por isso, acabámos naturalmente por lá chegar e por lá nos deixámos ficar, até que a noite caísse e os turistas começassem a abandonar o local. É essa a altura em que a praça mais nos cativa, quando a cidade se torna genuína e conseguimos observar um palpitar diferente, mais inspirador.

Pelas ruas da cidade é comum encontrar bandeiras e faixas coloridas com os brasões de cada bairro ou “contrade” (que é como se designam os bairros de Siena), o que acentua ainda mais o ambiente ancestral envolvente e aquele imaginário que associamos aos torneios medievais, talvez por força de tantos filmes de época a que assistimos. 

Esse hábito de engalanar as ruas de cada bairro está ligado ao evento maior da cidade, o Palio di Siena, a famosa e emocionante corrida de cavalos, num regresso quase literal à idade média. O Palio é feito duas vezes por ano na Piazza del Campo, a 2 de julho e a 16 de agosto, desde o século XVII. Participam os 17 bairros da cidade (os tais contrades), cada um deles desfilando pela piazza com as suas cores, as suas bandeiras, o seu brasão e entoando o seu hino. Mas na corrida, propriamente dita, participam apenas 10 cavalos e cavaleiros, de cada um dos 10 bairros escolhidos por sorteio. Ganha o cavalo que chegar primeiro após três voltas ao redor da praça, mesmo que o jóquei já tenha caído e o cavalo chegue sozinho. A corrida dura apenas 90 segundos, mas a celebração do evento prolonga-se por várias semanas.

Na minha primeira visita à cidade de Siena coincidiu ter lá estado no dia 15 de agosto, ou seja, um dia antes do Palio (de que eu nem nunca tinha sequer ouvido falar). Por isso a cidade estava naturalmente diferente, com os habitantes locais em grande número e numa azáfama descomunal, as ruas enfeitadas com bandeiras e faixas, o que dava à cidade uma imagem ainda mais medieval. 


E é este mesmo local, por onde correram desenfreadamente cavalos e cavaleiros nas várias celebrações do Palio, durante séculos, que agora nos acolhe. E é por lá que permanecermos horas sem conta, a contemplar os traços de uma Idade Média tão presente, e a sentir o palpitar da atual cidade.  

E foi nessa mesma praça que haveria de me deleitar ao observar a imagem enternecedora da minha filha Martinha, ainda bebé, a ensaiar os seus primeiros movimentos para gatinhar, naquele empedrado quente e acolhedor e carregado de tantos anos de uma história, que marca a história desta cidade.           

Carlos Prestes


domingo, 15 de maio de 2005

Dolce fare niente - Toscana


Viajar por Itália traz-me sempre uma sensação muito agradável, como que um conforto de quem se sente em casa. Talvez pelas paisagens ou pelos hábitos locais, certamente pelas pessoas e por aquela língua cantada... mas também pelos paladares, pelos aromas e por todo um ambiente, que é tão cativante, e que se percebe em cada detalhe desta terra. 

É provavelmente o país que melhor nos conseguirá proporcionar aqueles prazeres que só em Portugal costumamos experimentar. E é na Toscana, a província rural mais encantadora de toda a Itália, que essas semelhanças se tornam mais evidentes. 

E é tão fácil deixarmo-nos envolver pelo gozo de uma vida prazenteira que tanto nos agrada. Do almoço prolongado à sombra de um alpendre que nos refresca do calor ardente. Da comida deliciosa, dos vinhos, dos queijos, dos sabores condimentados com ervas mediterrâneas. Do ecoar da música arrebatadora que se ouve em fundo, a ária de uma ópera italiana, que só ali me faz sentido. 

E há sempre o poder esmagador das imagens, cada ângulo abre-nos um novo cartão postal que nos deslumbra. Um horizonte de tons dourados de um campo de trigo maduro, salpicado por enormes rolos de feno seco, que ali repousam. O verde intenso de uma vinha infinita junto ao vermelho vivo dos campos de papoilas. Ou uma casa senhorial, la casa dei padroni, sempre marcada pela linha de ciprestes que assinala o carreiro de acesso. Ou até uma fortaleza medieval, com séculos de histórias de combates sangrentos na proteção da aldeia, e que repousa agora tranquila, do alto da sua colina. 
E é mesmo assim, quando descobrimos a Toscana, esse lugar tão mágico e acolhedor, apetece-nos ficar sempre mais um bocadinho, num dolce fare niente, para um último copo de Chianti com uma côdea estaladiça de pão molhado em azeite... e para um último olhar em volta, confirmando a imagem da perfeição. 

Carlos Prestes 

domingo, 14 de março de 2004

Da janela vê-se o Corcovado, o Redentor, que lindo!

Ao fim de algum tempo no Rio de Janeiro chegou a hora de subir ao Morro do Corcovado, apreciar de perto o seu Cristo Redentor e contemplar as paisagens magnificas que aquele lugar tem para oferecer. 

O Corcovado é um morro com 709m de altitude, localizado por detrás da zona Sul da cidade, entre o Botafogo e a Lagoa Rodrigo de Freitas, e o seu nome vem de uma aparente semelhança com uma “corcunda”. É indiscutivelmente o principal ponto turístico do Rio, não tanto pelo próprio morro, mas antes pela estátua de Jesus Cristo construída no seu topo . . . o Cristo Redentor, que abre os braços para a cidade como se a abraçasse. 

Aquela estátua é o grande ícone da cidade maravilhosa e está intrinsecamente ligada ao seu imaginário. Surge nos folhetos turísticos, nas imagens em bilhetes postais ou em tantas músicas onde é figura principal, sobretudo nos sambas cariocas ou em canções do universo Bossa Nova, onde o morro ou o seu Cristo, são cantados como uma espécie de padroeiro protetor da cidade. 

Mas para nós, portugueses, esta estátua será sempre uma versão brasileira do nosso Cristo Rei, tais são as semelhanças. E no meu caso, em particular, que sou um apaixonado pela Bossa Nova e vejo diariamente da minha janela, a escassas centenas de metros, a estátua do Cristo português, chego a ter a ilusão de confundir estes dois símbolos e as cidades que ambos abraçam . . . e recordo tantas vezes aquela bossinha inspiradora, onde Tom Jobim dizia: “Da janela vê-se o Corcovado, o Redentor, que lindo!” (Corcovado - Cover by Carlos Prestes). 
Mas voltando ao Rio, o projeto do Cristo Redentor teve o seu embrião ainda no século XIX, no ano de 1824, com a construção de um bonde, o chamado "Trem do Corcovado", que sobe até o topo da montanha. Bem mais tarde, depois de um concurso de ideias, foi escolhido o modelo de uma estátua inspirada na corrente europeia art déco, concebida pelo engenheiro brasileiro Heitor da Silva Costa, em parceria com o escultor francês Paul Landowski. A estátua foi construída em betão armado e revestida em pedra-sabão, uma rocha metamórfica que se encontra muito no estado de Minas Gerais. Os trabalhos decorreram até à inauguração, no ano de 1931. (Percebe-se, portanto, que o nosso Cristo, inaugurado apenas em 1959, será a réplica e não o original). 

Em 2007, o Cristo Redentor foi oficialmente reconhecido pelo mundo, ao ser considerado uma das Sete Maravilhas, a par de alguns dos grandes ícones mundiais, como o Machu Pichu ou a Grande Muralha da China. 

E de novo no alto do Corcovado, enquanto me perdia naquela paisagem, que alcança toda a cidade, uma imagem fez-me lembrar que o Brasil é também o país do futebol. Foi a figura do imponente estádio Maracanã, que surge do lado Norte do morro e é um dos símbolos indiscutíveis da cidade. Foi construído para o campeonato do Mundo de 1950 e foi logo palco de uma das maiores desilusões coletivas do povo brasileiro, com a derrota na final frente ao Uruguai, com 200 mil pessoas no estádio, num triste episódio que ficou conhecido como Maracanaço. Na altura da nossa viagem o estádio do Maracanã estava já bastante desatualizado face às exigências atuais de conforto e segurança. Mas nos anos seguintes o espaço haveria de ser totalmente reformado para a Copa do Mundo de 2014 e para as Olimpíadas de 2016. 

Mas depois da histórias que aquele local nos trás à memória, falta-me ainda mencionar os instantes mais decisivos da nossa visita. Quisemos chegar cedo para evitar uma maior concentração de turistas, embora se perceba que o espaço está preparado exclusivamente para esse tipo de visitas . . . os turistas chegam, tomam posição nos pontos de observação, tiram fotografias e partem. E era mais ou menos isso que eu contava fazer, mas a experiência acabou por me tocar de uma forma mais intensa. 

Quando nos conseguíamos fixar num local onde era possível contemplar a paisagem envolvente em toda a sua dimensão, o espetáculo começou e prendeu-nos de uma forma muito para além do que estaríamos à espera. 

A sensação era quase vertiginosa e arrepiante, senti-me como que atraído para aquele abismo que se abria à minha frente, sem qualquer defesa ou resguardo, criando uma sensação de cumplicidade para com a cidade. E já não era possível abandonar aquele lugar, tinha de exorcizar toda a emoção que de repente se acumulava. Precisava de mais tempo, um tempo para uma entrega total que a cidade pedia. 

Faltou-me o ar, faltaram-me as forças, senti arrepios, chegaram-me as lágrimas aos olhos, tanta vertigem e tanta comoção. Deixou de nos importar quem eram os outros que ali estavam naquele miradouro, já não nos preocupava sequer a presença do nosso taxista, esperando por nós, deixámos de ter a noção do tempo. Ficámos sozinhos, num silêncio profundo, apesar de tanta gente barulhenta ao nosso lado, e continuámos deslumbrados por aquela cidade que, dali, era ainda mais maravilhosa e “cheia de encantos mil” do que alguma vez a tinha imaginado. A sua Lagoa, no coração da zona Sul, os bairros chiques de Ipanema e Leblon, fixando a linha onde acaba a cidade e começa o mar, as praias do Botafogo e do Flamengo, o centro histórico, e os muitos outros morros que enfeitam a cidade, alguns ocupados por extensas favelas, e ainda a presença imponente do Pão de Açúcar, como um farol que assinala a chegada ao mar da baía da Guanabara
Alguns dias depois, enquanto atravessava uma última vez a cidade do Rio, já de táxi, a caminho do aeroporto, sabiamente batizado como “Aeroporto António Carlos Jobim” e, talvez por isso mesmo, olhando em volta para a cidade que deixávamos para trás, imaginei ouvir mais uma vez, talvez passasse no rádio do carro ou talvez fosse só imaginação minha, aquele som "balançado que é mais que um poema, a coisa mais linda, mais cheia de graça . . . que vem e que passa . . . e fica mais linda, por causa do amor”. 

Carlos Prestes 
Março de 2004

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