terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sinais da boémia parisiense

Ao longo dos anos tive a oportunidade de visitar a capital francesa mais de uma dezena de vezes e, por isso, fui conhecendo os mais diversificados pontos de interesse que a cidade nos pode oferecer e todo o tipo de emoções que podem ser experimentadas . . . basta procurar, como quem escolhe num menu.

E, neste caso, vou-me concentrar apenas nas experiências vividas nos principais locais de vida noturna e da boémia parisiense mas, sendo assim, não posso, de todo, limitar-me a uma única foto, pelo que vou juntar várias fotos que vão ilustrando as diferentes histórias.

E vou começar pela Rive Gauche, na margem esquerda do rio Sena, é o coração da noite parisiense, o chamado Quartier Latin fica localizado entre a Ile de la Cité, onde se ergue a majestosa Notre-Dame, e a Université Paris-Sorbonne, incluindo alguns locais de grande animação, entre as ruelas mais apertadas e mais típicas e os elegantes Boulevards Saint-Germain e Saint-Michel. 

Nesta zona conheci alguns locais de animação noturna, para além das próprias ruas do Quartier Latin, sempre agitadas quando a noite cai. E dos muitos restaurantes e bares que por ali se encontram, vou deixar o registo da minha experiência no Café Le Procope, um restaurante que é também um marco da história e da cultura da cidade de Paris. Foi fundado em 1686 e é mesmo o restaurante mais antigo de todo mundo que ainda está em atividade. A experiência é requintada, talvez até em excesso, mas não se pode pensar que estamos apenas num café ou restaurante. Aquele jantar, numa noite de Inverno de 1996, foi muito para além de uma experiência gastronómica fantástica, que me levou a provar diferentes lotes de ostras, com vinhos brancos, que iam chegando à mesa na sequência apropriada a cada fase da degustação. Isso é muito bom - claro que é - mas neste restaurante não é isso que mais impressiona. O que mais me marcou foi a possibilidade de usufruir de um ambiente impregnado da história e cultura parisienses, que se respira em cada sala e em cada recanto. Percebe-se, pelas referências, que o espaço foi frequentado por grandes vultos das épocas mais marcantes da história francesa, como Napoleão Bonaparte e outras figuras ilustres do período da Révolution Française. 

O Le Procope está também associado ao conceito dos chamados cafés literários (como acontece com o nosso Martinho da Arcada), com a presença registada de alguns dos mais ilustres escritores, dramaturgos e pensadores franceses, como Molière, Voltaire ou Honoré de Balzac. Já mais tarde, na segunda metade do século XX, o Procope era o local preferido para as tertúlias entre intelectuais parisienses, como Simone de Beauvoir ou Jean-Paul Sartre.
Mas quando penso nesta experiência, fico sempre sem saber o que mais me terá emocionado naquele local . . . se a sensação de respirar um ambiente com um lastro histórico e cultural incalculável . . . ou se terão sido antes os deliciosos crêpes flambées au grand marnier. 


Depois de jantar, qualquer que seja o restaurante escolhido, impõe-se um passeio até à rue de la Huchette, já bem próxima da margem esquerda do Sena, para uma visita à cave do nº5, o Le Caveau de la Huchette. Trata-se de um clube de Jazz recriando um ambiente, quase autêntico, dos anos 50, com uma banda a tocar um som ritmado e bem dançável, e com o salão cheio de dançarinos, que vão ensaiando os seus melhores passos de dança, embalados pelos ritmos contagiantes do swing. O ambiente é giríssimo, funciona como nos antigos salões de baile, com os homens a procurarem as suas parceiras em plena pista de dança nos intervalos das músicas . . . muito old school. E até eu, que tenho uns pezinhos para dançar que mais parecem duas mesinhas de cabeceira, lá me fiz à vida e também dei o meu pé-de-dança . . . terá sido uma noite muito má para aquele clube! Mas a experiência foi fantástica. 


Ainda sem sair do Quartier Latin, recomendo um passeio ao longo da margem esquerda do rio, até à Pont des Arts. Passear pelas margens do Sena é sempre uma experiência encantadora, mas, naquela zona e durante a noite, a paisagem revela-se ainda mais bonita, com as imagens dos edifícios iluminados da Ile de la Cité . . . e a grande catedral, sempre presente, sempre dominante.

Mais à frente surge então a Pont des Arts, uma ponte pedonal que atravessa o rio levando-nos diretamente até às portas do Louvre, que se transformou num local de concentração de jovens, que por ali ficam, pela noite fora, sentados no pavimento de madeira, só na conversa, ou tocando viola e cantando, e - claro - sempre bebendo e fumando, sabe-se lá o quê.
Os guarda-corpos da ponte foram sendo preenchidos com milhares dos chamados “cadeados do amor”, num gesto escolhido por muitos casais de namorados, para selar a sua paixão, prendendo à ponte um cadeado que simboliza a ligação entre eles e deitando depois a chave ao rio, garantindo, dessa forma, que essa ligação jamais se irá romper . . . mas é bom que não confiem apenas nos cadeados e façam mais alguma coisa no dia-a-dia para manter a relação forte e unida - digo eu. Mas, mais recentemente, por motivos de segurança (tanto da própria ponte como dos barcos que passam por baixo) os cadeados foram retirados e lá se foram as juras de amor eterno. 
Mas com cadeados ou sem eles, esta ponte deverá ser sempre um local de visita obrigatória, não encontraremos sinais da típica boémia parisiense, mas descobriremos outras motivações para uma noite bem agradável. 


Saltando agora para outro dia e para um outro local da boémia noturna, depois de um percurso de Metro até à estação de Anvers, chegamos à igreja do Sacré Cœur e ao bairro de Montmartre. Escolhendo o final da tarde para chegar a esta zona, podemos observar o anoitecer na Place du Tertre, a imensa galeria de arte a céu aberto, onde dezenas de pintores tentam ganhar a vida fazendo retratos ou caricaturas aos turistas que vão passando. Ao entardecer observa-se cada um deles a desmontar os seus cavaletes e a arrumar tintas e pincéis, e a praça vai ficando vazia, de pintores e de turistas, e as casas, cafés e restaurantes, vão-se mostrando finalmente de forma genuína. E podemos ainda acompanhar as vistas magnificas sobre a cidade que os miradouros daquele local oferecem, e as imagens da igreja do Sacré Cœur, sempre extraordinariamente belas.

Quando a noite cai podemos então caminhar até à zona de maior concentração de atrações noturnas, junto à Place Pigalle, percorrendo toda a Rue Lepic. No nº15 desta rua vamos encontrar um outro espaço de referência, o Café des Deux Moulins. Aparentemente é só mais um bar ou café de bairro, que se transforma num bistrô que também serve refeições e onde podemos parar para um jantar rápido e ligeiro. Mas este local é bem mais do que isso, para mim, é sobretudo importante por ter sido palco de um dos filmes franceses de referência o Le fabuleux destin d'Amélie Poulain.


A escassos 300m chegamos depois ao Boulevard de Clichy, que nos leva entre a Place Pigalle e a Place Blanche, numa zona onde nos cruzamos com vários tipos de estabelecimentos de diversão noturna mais da pesada, onde abundam as sex shops e os night clubs. Mas foi já em plena Place Blanche que encontrei o local escolhido para passar um serão diferente, assistindo a um espetáculo numa das casas de diversões mais antigas e mais importantes da cidade, o Moulin Rouge. 

É um verdadeiro cabaré tradicional, construído no final do século XIX, onde podemos assistir a espetáculos que continuam a recriar o ambiente boémio da Belle Époque. Mas, para mim, também o Moulin Rouge é bem mais do que um cabaré parisiense, é acima de tudo o magnifico cenário de uma das produções de cinema mais arrojadas . . . e que, mesmo sendo um musical, consegue ser um enorme filme. 

Estas foram apenas algumas experiências que aqui partilho para inspirar quem quiser conhecer a noite da capital francesa, com vários sinais da boémia parisiense, dos mais antigos e recheados de história, aos mais espontâneos e mais atuais. Tudo se consegue encontrar . . . é emoção à la carte ao mais alto nível. 

Carlos Prestes 

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domingo, 5 de setembro de 2010

No esplendor da noite - We'll always have Paris

Todo o esplendor monumental que a cidade de Paris oferece a quem a visita, com os seus magníficos edifícios, palácios e museus, adquire, durante a noite, uma nova face, quando os monumentos e as avenidas se iluminam, e nos proporcionam uma imagem diferente desta cidade, mas nem por isso menos bonita.

Mas para encontrarmos esta nova perspetiva da capital francesa é preciso estarmos disponíveis para percorrer os mesmos locais que visitámos durante o dia, depois da noite ter caído e o céu escurecido, com a curiosidade de quem procura uma cidade diferente, mais autêntica e mais sedutora, muito mais próxima do verdadeiro sentido do nome por que é conhecida... “A Cidade da Luz”, com milhões de pontos luminosos, definindo os contornos de um local que é assim ainda mais magnifico. 

Paris não é bem aquela cidade onde se ganhe muito em interagir com quem lá mora, o contacto pessoal não é claramente um dos seus pontos fortes. E, por isso, à noite, quando a cidade perde os seus habitantes e faz surgir apenas alguns dos seus vultos que mal se reconhecem na escuridão, Paris pode ser mais genuína, e ser realmente aquilo que ela é... uma cidade modelo, a mais bela de todas as cidades... é assim que vejo Paris quando penso apenas na sua arquitetura e na sua estética, um local esteticamente prodigioso. 

E são sempre esses passeios noturnos que mais me agradam, percorrer uma cidade deslumbrante, sem procurar a sua palpitação, mas apenas em busca da sua beleza . . . a beleza e o brilho das suas jóias principais. São os grandes boulevards com edifícios monumentais bem iluminados, autênticos palácios reais em dias de festa, que vão surgindo em cada quarteirão. São as preciosidades que a cidade vai mostrando, como o imponente arco, triunfando no topo da grande avenida, ou as margens de um rio, que à noite são ainda mais bucólicas e inspiradoras, com cada ponte a surgir brilhante, como uma peça de arte que ornamenta o trajeto das águas. 

E depois há sempre o encontro com a grande torre, tão cansada de carregar milhões de visitantes à luz do dia, ergue-se à noite como um símbolo maior do encantamento com que esta cidade sempre nos comove. 

E por muitas que sejam as viagens que que vou fazendo à cidade de Paris, angustiam-me sempre as despedidas... mas sei que o regresso será inevitável, tem sido sempre assim e assim continuará a ser... por muitos mundos que se conheçam, esta é uma cidade que sempre me irá atrair para uma próxima visita... recordando-me a frase imortal de Humphrey Bogart para Ingrid Bergman, numa das despedidas mais célebres da história do cinema... we'll always have Paris. 

Carlos Prestes 
Agosto de 2010

domingo, 14 de junho de 2009

Uma descoberta surpreendente - MET Museum (New York)

Depois de uma longa caminhada em torno do Central Park, chegámos ao Metropolitan Museum of Art, conhecido informalmente como “The MET”, um dos museus de arte mais visitados, não só na cidade de Nova Iorque, mas em todo o mundo... e a minha primeira impressão foi que tudo aquilo me parecia demasiado grandioso... diria mesmo, assustadoramente grandioso. E, quase por instinto, resolvemos dispensar toda aquela parafernália de arte clássica e seguimos diretamente para a ala dos impressionistas, ocupada por uma coleção riquíssima daquele movimento criado em França no século XIX.

Sempre fui fã incondicional dos impressionistas e tenho visto algumas das obras de referência em várias cidades europeias, nomeadamente em França, onde estão as galerias com a maior quantidade de peças deste movimento. Mas a coleção dos impressionistas do MET pareceu-me ser das mais completas, contendo, inquestionavelmente, algumas das pérolas dos principais artistas.

E o que fizemos foi percorrer as salas e corredores, sem destino definido, demorando-nos mais ou menos em função das obras que íamos encontrando e da forma como cada uma delas nos ia tocando. E  foram assim passando os grandes clássicos... Edgar Degas, Claude Monet ou Renoir, um dos meus favoritos. 

Até que chegámos a Van Gogh, com todo um espaço dedicado ao pintor holandês, não faltando um dos seus habituais auto-retratos. Vincent Van Gogh tem a maior parte da sua obra exposta no museu com o seu nome em Amesterdão, mas foi aqui que, pela primeira vez, um quadro do pintor holandês me haveria de emocionar. 

Muito para além de todas as obras que tinha vindo a encontrar, fui surpreendido, quase esmagado, pelo magnífico quadro a óleo “Campo de Trigo com Ciprestes” de Vincent Van Gogh.

Conhecia perfeitamente aquela imagem, aliás é uma das mais populares do autor, mas não estava à espera que aquele pequeno quadro, com apenas 73 cm x 93 cm, me pudesse tocar daquela forma. 

Fiquei sentado no meio do salão, imóvel e em silêncio, observando aquelas cores, aquele emaranhado de pinceladas espessas que quase me arrepiaram, aquela luz, que parecia irradiar das camadas subjacentes de tinta, já com 120 anos de idade.

Aquele quadro tinha um efeito quase físico, um magnetismo que me impressionou de uma forma brutal... e eu não estava preparado para toda aquela beleza.

Carlos Prestes
Junho de 2009

sábado, 13 de junho de 2009

The missing towers - New York

Durante uma viagem de barco que segue o curso do rio Hudson, do lado Ocidental da ilha de Manhattan, temos o privilégio de poder contemplar algumas das paisagens mais bonitas do skyline da cidade de Nova Iorque. 

Mas foi já depois da península onde se inscreve o downtown da cidade que nos aproximámos de um dos pontos altos desta viagem, quando passámos a poucos metros da Liberty Island e de um dos símbolos mais importantes do Estados Unidos, The Statue of Liberty. 

Uma estátua que é também uma referência firme ao valor da liberdade, como um dos direitos fundamentais que a América tem adotado como grande prioridade (só é pena que, mais recentemente, na era Trump, todos esses valores originais estejam a ser postos em causa). A estátua foi projetada e construída em França e oferecida aos Estados Unidos, depois de ter sido transportada de barco durante mais de um ano, separada em 350 peças com um peso total de 160 toneladas. Após a sua montagem na Liberty Island a Estátua da Liberdade abriu ao público em 1886 e é, até hoje, uma das grandes referências da nação norte americana. 

Mas depois de algum tempo em torno da Liberty Island invertemos a marcha e voltámos a encarar o conjunto de arranha-céus que definem o contorno do downtown da cidade. 

E foi nessa altura que, pela primeira vez, senti uma forte ausência da antiga referência da cidade de Nova Iorque, o World Trade Center com as suas Twin Towers, que desapareceram desta paisagem desde a minha última visita em 1996. 

Já tinha passado pelo Ground Zero, onde outrora se ergueram as torres, mas encontrei apenas um enorme estaleiro de obras, com gruas e contentores, e já com a estrutura da nova torre a emergir. Mas, estranhamente, naquele epicentro de toda a tragédia, não consegui sentir a importância nem a carga emotiva que aquele local encerra. Ou talvez nem quisesse mesmo sentir esse dramatismo que lhe está associado . . . talvez tivesse já feito o luto que aqueles acontecimentos justificavam. 

Mas daqui, contemplando um skyline amputado, foi-me impossível não recordar aqueles instantes em que a história do mundo mudou, ao mesmo tempo que a própria cidade se transformava para sempre. Não foi só o seu skyline, que agora observava, notando a ausência das torres, foram as cicatrizes profundas que se abriram naquele dia fatídico, e que jamais serão fechadas. 
Fecho os olhos e a memória faz com que as imagens perdurem, a silhueta das torres volta a materializar-se e o espírito da cidade parece manter-se intocável . . . mas de regresso ao presente, sinto agora esta ausência como uma ferida insuperável e devastadora. 

Carlos Prestes 
Junho de 2009

sexta-feira, 12 de junho de 2009

No império dos sentidos - Empire State Building (New York)

Programei chegar à 34th Street ao final da tarde, para entrar no Empire State Building e subir até ao topo ainda com luz solar, e assim poder assistir lá de cima ao pôr-do-sol e ao cair da noite. 

A filas são sempre o grande problema com que nos debatemos na visita a uma cidade, por isso, neste caso, é conveniente levar os ingressos já comprados para minimizar a demora. No entanto, e mesmo já sem ter de comprar os bilhetes, será ainda expectável que se perca algum tempo na fila para o elevador, e quando digo algum tempo, quero dizer mais de uma hora. Mas no final vai valer a pena. 

O Empire State Building é um dos grandes arranha-céus da cidade de Nova Iorque. Tem 102 andares e uma altura de 381m até ao terraço de cobertura, mas atinge os 443m com a torre da antena. Quando da sua inauguração, em 1931, o edifício era o mais alto do mundo e manteve esse estatuto durante quase 40 anos, até ser concluída a torre Norte do complexo do World Trade Center, no final de 1970. 

O edifício foi projetado em estilo art déco e foi classificado como uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno pela Sociedade Americana de Engenheiros Civis, algo que me impressiona, a mim, em particular, mas mais por deformação profissional. 

E ao longo dos quase 90 anos da sua história, este edifício foi vivendo alguns episódios que marcaram a cidade. Logo em 1933 a torre ficou associada a um filme que se tornou um clássico, o King Kong, onde um enorme gorila se pendurava no prédio para combater os aviões que o tentavam caçar. Mais tarde, em 1976, o edifício volta a aparecer no remake desse mesmo filme. 

Já fora da ficção, em 1945, um bombardeio B-25 perdeu as referências devido a um forte nevoeiro e colidiu com a fachada Norte da torre, entre os andares 78 e 80, causando 14 mortes. O incêndio provocado pela colisão foi controlado em apenas 40 min, o que garantiu que o edifício não se tivesse desmoronado. 


E depois de uma longa espera cheguei finalmente ao patamar de observação, primeiro ainda no meio de alguma confusão, mas, mais tarde, pude então chegar até à grade de proteção e consegui contemplar a paisagem. 

Estávamos no final de uma tarde quente de junho quando, finalmente, consegui olhar sobre a cidade, e experimentei uma sensação inesquecível. A imagem daquele conjunto de arranha-céus grandiosos foi arrepiante, uma espécie de vertigem que me engoliu e emocionou. 

Foi como se todo o mundo estivesse ali aos meus pés e já não era possível abandonar o alto daquele edifício, tinha de ficar por lá, tinha que me demorar o tempo necessário para me comover devidamente por toda aquela profusão de sentidos, que me baralhava enquanto me deixava tremendamente feliz. 

Estávamos ainda ao entardecer e resolvi permanecer por lá até assistir ao espetáculo. E o show começou, primeiro foram as cores alaranjadas do pôr-do-sol e, mais tarde, a noite começou a cair e a cidade foi escurecendo, enquanto surgiam, como que por feitiço, milhões de pontos luminosos que transformaram aquele momento numa noite mágica e inesquecível, e aquela cidade, na mais bela cidade jamais vista. 
Não é fácil reproduzir a sensação esmagadora que me tomou no alto daquela torre imperial que domina toda cidade e que me tocou em todos os meus sentidos, perfeitamente rendido aos encantos daquela cidade magnifica. 

Carlos Prestes 
Junho de 2009

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sábado, 24 de novembro de 2007

No castelo dos sonhos - Castelo de Neuschwanstein na Baviera

O Castelo de Neuschwanstein é o mais bonito e mais importante dos três castelos do rei Ludwig II da Baviera, construído sob a inspiração da obra do seu amigo e protegido, o compositor Richard Wagner. O rei Ludwig II, ou Luis II, na tradução portuguesa, que governou a Baviera no final do século XIX, era um romântico e um sonhador, e mandou construir, durante o seu reinado, vários castelos e palácios extravagantes, gastando o dinheiro do reino de uma forma obstinada e quase insana, o que fez com que o apelidassem popularmente como "Rei Louco". Mas foi o seu próprio governo, aproveitando esse mito popular e receando as dívidas, que não paravam de aumentar, que lhe diagnosticou uma doença mental, declarando-o oficialmente como louco, tendo sido deposto e preso, exatamente um dia antes de sua morte. 

Mas graças à loucura, ou extravagância, deste governante, o reino da Baviera terá ficado um pouco mais pobre mas, como herança, foram deixados três castelos dos mais fantásticos que podem ser encontrados em toda a Alemanha.

A visita começa no pequeno vilarejo de Hohenschwangau, localizado no sopé da montanha, onde tomamos a decisão de fazer a subida até ao castelo, escolhendo um Shuttle Bus local, uma requintada charrete ou, simplesmente, optando por caminhar até ao topo pela estrada ou mesmo seguindo por um trilho alternativo.

E era inevitável que essa fosse a nossa escolha, seguindo a pé pelo trilho e aproveitando cada momento que a montanha nos haveria de oferecer. A subida chegava a ser quase uma escalada ao longo de um carreiro sombrio que ia perfurando uma densa floresta. Mas aqui ou ali, iam-se abrindo pequenas clareiras com paisagens que eram quase sempre esplendorosas, com as colinas que contornam a grande montanha e o enorme espelho de água do lago principal, em torno do qual se erguem outros palácios e casas senhoriais imponentes,

O percurso é quase sempre inspirador mas o momento chave e aquele que mais nos deslumbrou em toda a caminhada, foi o instante em que contornámos a colina, alcançando a pequena ponte de Marienbrücke, que liga as encostas escarpadas do desfiladeiro, e se abriu, ali bem à nossa frente, a imagem de um vale inacreditável, dominado pela imponência e pela beleza do castelo . . . e de repente, foi como se um cenário encantado nos tivesse engolido, e nos fizesse entrar num mundo de fantasia, de príncipes e princesas. Não foi por acaso que Walt Disney escolheu este castelo como inspiração e modelo para criar o palácio que recebeu o grande baile, na noite de magia, que viria a transformar a Gata Borralheira na princesa Cinderela.

Estávamos ainda trémulos do cansaço da subida, mas sobretudo do impacto daquela imagem que nos surgiu de repente e sem aviso. Parámos sobre a ponte e tentámos descortinar cada detalhe daquele postal ilustrado onde tínhamos acabado de entrar. Inspirámos o ar fresco a plenos pulmões e deixámo-nos ficar o tempo suficiente para que as emoções sossegassem.
O interior do castelo é magnifico, com divisões luxuosamente mobiladas e com tetos e paredes debruados a ouro e outras preciosidades. E é também um exemplo de modernidade, tendo sido equipado com a mais alta tecnologia disponível à época, como uma rede de água corrente, quente e fria, que abastecia as casas de banho, e um sistema de aquecimento, altamente revolucionário, e bastante conveniente durante os Invernos e os constantes nevões. 

Mas por muita beleza que o interior do castelo pudesse oferecer, nada se podia comparar à sensação de termos sido envolvidos por aquela paisagem encantadora, que nos fez viajar até ao mundo dos sonhos. No percurso de descida atravessámos uma vez mais a ponte de Marienbrücke e voltámos a encarar o castelo e a contemplá-lo demoradamente . . . e ali permanecemos até nos sentirmos saciados, e só então, prontos para a derradeira despedida.

Carlos Prestes
Novembro de 2007

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terça-feira, 12 de setembro de 2006

Ao sabor do vento - Num barco à vela, do Algarve até Lisboa

Ao longo de vários anos tive o privilégio de fazer parte da tripulação de um veleiro e, durante esse período, participei em muitas regatas onde chegávamos a lutar pelos lugares da frente. Essa condição competitiva com que vivíamos cada regata não nos permitia desfrutar do verdadeiro prazer de velejar, sem pressa e sem destino. Foi assim, sob a adrenalina do cronómetro, que fomos percorrendo o estuário do Tejo e, por vezes, até para lá do Bugio, chegando a Sesimbra e a Tróia.

Mas nesta viagem, em setembro de 2006, velejando desde o Algarve até Lisboa, fizemos de forma diferente, parámos e navegámos quando quisemos, sem horários nem compromissos, ao longo de três dias, entre o mar e alguns portos de abrigo.

No final de qualquer odisseia o regresso a casa é sempre um momento de grande exaltação e, na nossa chegada a Lisboa, não foi diferente. Já depois de deixarmos a estibordo os longos areais das praias da Caparica, levantou-se a nortada que chega ao rio todos os dias nos finais de tarde, as velas obedeceram e o barco começou a adornar e entrámos em modo de regata, com bordos sucessivos para manter o ritmo e fazer despertar a adrenalina, numa espécie de sprint final, para acabarmos a viagem em beleza. 

Contornámos o Bugio, esse farol que é quase místico, e que nos guia mas também nos assusta, revelando uma presença tantas vezes fantasmagórica. Entrámos no estuário do Tejo e o sol começou a cair e foi colorindo as águas em tons alaranjados que iam ficando cada vez mais escuros, num pôr-do-sol que nos mostrava Lisboa numa penumbra quase melancólica, pronta para nos acolher neste regresso a casa. 
Apenas três dias no mar, mas podiam ter sido semanas ou meses, que encontraríamos esta mesma cidade pronta para a nossa chegada, guiando-nos ao nosso porto final, junto ao Padrão dos Descobrimentos, onde fomos recebidos pelo mesmo Infante, que tanto simboliza a história dos navegantes, sem nunca sequer ter navegado. 

Foram três dias de descoberta, não descobrimos praias desertas nem ilhas perdidas, mas sinto que me descobri a mim próprio mais um bocadinho. Em todas as viagens encontramos sempre qualquer coisa de nós próprios, mas quando temos apenas o mar como parceiro, as reflexões são mais profundas e a descoberta é ainda mais marcante. 

A vida continua em terra firme, mas não vou esquecer o flutuar ondulado que me embalou e me encantou nestes dias extraordinários. Baixámos as velas e amarrámos o barco . . . já com saudades desta vida de marinheiro. 

Carlos Prestes 
Setembro de 2006