terça-feira, 17 de abril de 2012

Riomaggiori


Depois de nos livrarmos do carro num qualquer estacionamento em La Spezia ou em Monterrosso, e acreditem que isso constitui o principal desafio para quem visita esta zona da Ligúria, entramos num dos comboios que percorrem a linha marginal e estamos preparados para conhecer as belíssimas Cinque Terre.

Quatro destas cinco aldeias ficarão a escassos 5 min de comboio entre cada uma delas, depois é só escolher por que ordem queremos fazer a visita. Neste caso começámos de Sul para Norte, ou seja, a primeira paragem foi em Riomaggiori.

É uma das aldeias mais bonitas, com as suas casas pintadas nas cores típicas da região, quase amontoadas entre si e dispostas sobre as encostas de um vale ingreme que se encaminha para o mar, que aqui é de um azul forte e brilhante.

Para além de ser uma atração turística muito procurada, a aldeia é também conhecida pelo vinho que é produzido nas vinhas que se dispõem ao longo das encostas. São visíveis em alguns locais destas aldeias, pósteres ou fotos que mostram a vinha plantada em socalcos talhados nas ravinas, bem como o processo da vindima, feito de forma totalmente artesanal, com recurso a uma espécie de funiculares improvisados para transportar os cestos das uvas. O vinho é um branco seco, não é soberbo, mas é muito razoável.

Apesar desta e das restantes aldeias serem atravessadas por uma linha de comboio, a maior parte dos trechos dessa linha são em túnel e quase não interferem na paisagem, como aqui, em que o comboio só sai do túnel mesmo na estação, que fica sobre um viaduto com vãos em arco. Como a aldeia se desenvolve sobre as encostas de um vale muito íngreme todas as ruas vão convergindo para a rua central, a Via Colombo, que passa sob a estação e desce até ao mar, numa pequena praia de calhau preto com uma rampa para apoio na entrada e saída das embarcações de pesca... numa zona onde o emaranhado de casas coloridas quase se encavalitam para aparecer na fotografia.
Riomaggiori é um daqueles locais onde nos faz apetecer ficar parados, apenas a contemplar a paisagem, e existem vários pontos onde conseguimos uma vista privilegiada para essa reflexão… e estamos perante o mar imenso, de um azul brilhante a beijar a aldeia numa pequena enseada, formando um conjunto que é quase comovente... ou temos a própria aldeia, que é só uma terrinha de pescadores, e chega a fazer-nos lembrar alguns filmes italianos, como o “Il Postino” (O carteiro de Pablo Neruda), que não foi ali rodado, mas o ambiente de aldeia piscatória está lá e é bem evidente.
Que encantador é este lugar que quase nos causa arrepios, tal é a beleza que nos rodeia e que nos chega a parecer quase irreal.

Carlos Prestes

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Portovedere, la sesta terra


Às principais aldeias das Cinque Terre acrescentámos uma outra, também ela incluída na classificação de aldeias património, trata-se de Portovedere, uma outsider deste conjunto afamado de aldeias da Ligúria, mas também ela encantadora.

Localizada a apenas 13 km da cidade de La Spezia, Portovedere é uma das típicas aldeias da costa da Ligúria, com as suas casas pitorescas com fachadas pintadas a cores pastel, contrastando entre si de forma muito característica.

Esta aldeia tem a particularidade de ter as muralhas de um castelo no alto da montanha e uma torre de igreja, que enquadram a linha definida pelos telhados dos edifícios, dando origem a um conjunto particularmente bonito. Num breve percurso conseguimos chegar aos pontos mais altos desta fortaleza de onde podemos contemplar a paisagem envolvente da baía que se forma em frente à aldeia, e do cais que se estende até ao mar através de um promontório rochoso, onde se ergue a bonita Chiesa di San Pietro.

Todas estas paisagens são lindíssimas, mas a minha imagem favorita, é aquela que mostra o conjunto de casas que quase se empurram umas às outras, cada uma delas com as suas cores vivas, num contraste digno de um quadro a pastel, criando uma paisagem imperdível, tão ou mais encantadora do que aquelas que encontramos nas aldeias que formam o grupo formalmente designado por Cinque Terre.

Carlos Prestes


A desilusão parmegiana - Parma


Uma grande desilusão... foi a principal sensação que me ficou da cidade de Parma. Mas talvez a culpa tenha a ver com a concorrência fortíssima das cidades que acabámos de visitar há poucos dias, quando andámos por Pádua, Bolonha e, sobretudo, Veneza, e depois chegamos a Parma e já pouca coisa nos fascina. E o facto de estar um dia cinzento e chuvoso também não terá ajudado nada.

Mas como esta é também a cidade do delicioso prosciutto di Parma e do famoso formagio parmegiano, contava, pelo menos, poder degustar essas iguarias, mas nem isso me calhou, talvez por azar, mas não encontrámos nenhum local suficientemente apelativo onde pudéssemos provar in situ aquelas especialidades locais.

Mas ainda assim não deixámos de fazer a visita à cidade passando pelos locais mais interessantes, que se dispõem num centro histórico bastante pequeno, o que faz com que o percurso necessário para conhecer a cidade seja relativamente curto, pouco mais de 3km. Assim, fomos percorrendo a malha de ruas do centro, onde é visível a arquitetura clássica que a cidade vai revelando, sempre na direção da praça mais monumental da cidade, a Piazza Duomo.

E foi ali que encontrámos os monumentos mais belos e interessantes de toda a cidade, o Duomo, o Batistério e o Palácio Episcopal, que formam um conjunto arquitetónico preciosíssimo que preenche a pequena Piazza Duomo.

O Duomo da cidade, também conhecido como Catedral de Santa Maria Assunta, com as fachadas em estilo românico, típicas das igrejas das cidades do Norte de Itália. No interior o estilo românico é ainda predominante, embora algumas das partes principais, como a nave central e a cúpula, tenham sofrido várias intervenções renascentistas e algumas das capelas laterais tenham sido mais tarde reformuladas em estilo gótico.

O Batistério, um templo lindíssimo dedicado ao ritual batismal, faz conjunto com a Catedral de Parma numa junção entre a arquitetura românica e a arquitetura gótica. Foi construído ao longo do século XIII, sob a inspiração do estilo gótico. O material dominante nas fachadas é o precioso mármore rosa de Verona, que muito contribui para uma beleza arquitetónica incontestável, que faz deste monumento o mais marcante de toda a cidade de Parma.

O dia estava chuvoso e a Piazza Duomo completamente vazia, e sem as cores que um dia de sol poderia fazer realçar, os dois monumentos não mostravam a beleza que uma arquitetura tão valiosa deveria revelar. Resolvi então fazer esta foto apenas em tons de sépia, para que os contornos fossem visíveis e a imagem revelasse um requinte semelhante àquele que nos era mostrado no local... um espaço solene, quase intimista, vazio e silencioso, sem cor e sem movimento.
Terminámos uma visita curta e pouco inspiradora a esta cidade de Parma, à exceção dos breves momentos que passámos na Piazza Duomo, e deixámos a cidade sem entusiasmo e sem alegria… na verdade, não me conformava com a ideia de que não poder provar umas fatias suculentas do afamado prosciutto di Parma, nem um daqueles queijos gigantes, que parecem pneus, e de onde se vão retirando pedaços do belo formagio parmegiano… nada disso aconteceu, uma tremenda desilusão, portanto!

domingo, 15 de abril de 2012

Le due torri - Bolonha


Bolonha poderá ser conhecida como a cidade das arcadas, devida à extensão das sucessivas galerias em arco que vamos encontrando, mas a cidade não pode ser dissociada de uma outra imagem, também ela dominante, e que tem a ver com as suas torres tão características que encontramos ou imaginamos, e que constituem uma marca incontornável da história medieval desta cidade.

Caminhar pelas ruas do centro histórico de Bolonha é um prazer, quase como se voltássemos à Idade Média, os seus edifícios e, sobretudo, aquelas torres, levam-nos ao imaginário que o cinema nos ajudou a contruir das épocas de reis e rainhas, de batalhas sangrentas e das grandes epidemias.

Nessa época existiam muito mais torres… torres para todos os gostos e todos os feitios, mas que foram desaparecendo ao longo dos séculos, existindo atualmente apenas vinte das quase duzentas que a cidade envergava no final do século XII... seja isso mito ou realidade.
São torres que vão surgindo ao longo da cidade, umas isoladas e outras como campanários das muitas igrejas que ali se encontram, mas, de todas elas, salienta-se claramente o conjunto que associamos como símbolo tradicional da cidade de Bolonha e que é constituído pelas chamadas Due Torri (duas torres).

Le Due Torri resultam da combinação das torres de Garisenda e de Asinelli, já ambas em condições de verticalidade muito duvidosa.

A Torre Garisenda, a mais pequena, tem hoje uma altura de 48m, embora inicialmente tivesse sido mais alta, com cerca de 60m, mas teve que ser rebaixada devido à cedência do solo de fundação, que a deixou oblíqua e insegura. Inicialmente tratava-se de uma propriedade privada, daí o seu nome, que corresponde ao da família proprietária, mas, no final do século XIX, a torre tornou-se uma propriedade municipal.

É também chamada como a torre Dante, que terá visto a torre tão inclinada quando era estudante na Universidade de Bolonha que lhe dedicou uns versos na Divina Commedia (Inferno, canto 31º), que se podem ler numa lápide colocada atualmente na base da torre.

A Torre de degli Asinelli, a mais alta das duas, com 97m, foi construída no século XII para abrilhantar as vaidades da família dos Asinelli, mas rapidamente passou a fazer parte das propriedades da Comuna local e começou a ser utilizada como posto de vigia para defesa da cidade.

Hoje em dia, este conjunto de torres, embora num estado de conservação e estabilidade algo periclitante, é ainda um dos monumentos de referência desta cidade e da sua paisagem.

Carlos Prestes


As arcadas de Bologna


Vaguear sem destino pela cidade de Bolonha é algo fascinante, trata-se de uma cidade histórica que nos vai mostrando sempre novos lugares cheios de encanto e magia, quer nas ruelas mais apertadas ou pelas ruas mais amplas… e foi assim que nos deixámos surpreender durante horas, sempre numa busca pelos pormenores que nos iam surgindo, alguns deles autênticas joias.

E uma das características encontradas, que constitui uma referência da arquitetura da cidade, é a existência de longas galerias com arcadas, que marcam a imagem das fachadas dos edifícios, funcionando como espaços comerciais ou apenas como passeios cobertos, usados para que as pessoas possam caminhar abrigados da chuva ou da neve.

Bolonha tem mais de 30km dessas galerias, como uma teia paralela de caminhos cobertos, com arcadas ou pórticos, sendo a galeria mais longa aquela que é conhecida como Via di San Luca, com mais de 2km, entre o Arco Del Meloncello e o Santuário Madonna di San Luca.

Carlos Prestes


Piazza Maggiore - Bolonha


Bolonha é uma cidade cheia de história e com uma arquitetura preciosa, marcada pela sua origem Etrusca, com os edifícios de tonalidade avermelhada ou de terracota que domina todo o centro da cidade, onde se sucedem monumentos e igrejas, edifícios com extensas arcadas e também as torres medievais, sobreviventes de uma época em que a cidade era dominada por este tipo de construções.

Mas, atualmente, Bolonha é uma cidade moderna que combina o seu aspeto ancestral com uma vivência animada e cosmopolita. É uma das cidades universitárias italianas mais importantes, com cerca de 100 mil estudantes, e mistura a sua história, a arte e a cultura, e uma gastronomia admirável, com um ambiente jovem e estudantil, que faz desta cidade um dos polos turísticos imperdíveis numa visita ao Norte de Itália.

A forma de conhecermos a cidade de Bolonha será, necessariamente, caminhando. E não é sequer preciso fazer grandes percursos, porque a cidade histórica é relativamente pequena e em 3 a 4 km conseguimos percorrer todos os locais de maior interesse.

O percurso que fizemos constituía apenas uma das várias alternativas para conhecermos o centro histórico. De qualquer forma, e seja qual for o trilho escolhido, passaremos inevitavelmente pelos monumentos mais importantes e pela praça mais emblemática da cidade, a Piazza Maggiore. Uma praça extraordinária que representa o centro medieval da cidade e que concentra o mais importante conjunto de relíquias arquitetónicas de Bolonha, funcionando quase como um mostruário de monumentos, todos eles preciosos.

Desde logo o Duomo de Bolonha, a Cattedrale Metropolitana di San Pietro, com o seu campanário, uma das várias torres que encontramos na Bolonha atual. A Catedral é uma das principais igrejas católicas da cidade, mas, reconheço que, para quem está a percorrer Itália, mais catedral, menos catedral, já não adianta grande coisa e esta não será certamente a mais emblemática.

Encontramos ainda nesta piazza o Palazzo dei Notai e a imponente Basílica de São Petrônio, e do lado Poente desenvolve-se o bonito Palazzo dei Banchi, cheio de arcadas, algumas delas dão acesso à teia de ruelas, quase medievais, como a Via Clavature que liga ao Santuário de Santa Maria della Vita.

Alguns destes monumentos poderiam ter um papel dominante em qualquer praça de uma outra cidade menos monumental, mas, ali na Piazza Maggiore, passam quase despercebidos ao pé daqueles que são as joias da coroa da cidade de Bolonha e que merecem mais destaque, como é o caso do O Palazzo Comunale, o mais bonito de todos os que ali se encontram, sobretudo devido ao requinte da sua Torre dell'Orologio.
Este Palazzo Comunale é composto por uma coleção de edifícios que, ao longo dos séculos, se uniram gradualmente num núcleo adquirido pela Comuna durante o século XIII, e inclui a Biblioteca Salaborsa, a Comune di Bologna (a Câmara Municipal da cidade), e o próprio o Palazzo Comunale que em conjunto com o Palazzo d’Accursio dominam a Piazza Maggiore, envergando a Torre Torre d’Accursio ou Torre do Relógio, bem diferente das demais torres da cidade e com uma beleza e um requinte sublimes.

Mas a Piazza Maggiore salienta-se também pela existência de uma pequena praça contigua, do lado Norte, a Piazza del Nettuno, conhecida pela emblemática Fontana del Nettuno, uma das principais imagens de referência da cidade de Bolonha.

A fonte com a estátua do rei Nettuno foi construída no século XVI pelo escultor flamengo Giambologna e é suposto ser um símbolo do poder do Papa, que governou o mundo como Neptuno governou os mares.

Junto da estátua, existem ainda quatro pequenos anjos que representam os rios dos quatro continentes descobertos naquela época: Ganges, Nilo, Amazonas e Danúbio.

Carlos Prestes


Prato della Valle - Padova


Na nossa visita à cidade de Padova encontrámos uma praça algo incomum e que nos chamou a atenção, sendo que em Itália a maioria das piazzas têm tendência para ser muito semelhantes em todas as cidades, esta é bem diferente e digna de registo.

Chama-se Prato della Valle, é formada por uma área relvada com pequenas árvores e tem uma forma elíptica com 230m de comprimento. É contornada por um canal artificial em todo o seu perímetro, deixando no interior uma ilha, a chamada Isola Memmia. A praça é atravessada por dois caminhos retos formando entre si uma cruz perfeita, cada um deles com duas pontes sobre o canal.

Para além desta geometria quase perfeita, a praça salienta-se pela beleza do seu canal que é adornado por estátuas de mármore nas duas margens em toda a sua extensão. Existem atualmente 78 estátuas ao longo do canal, construídas por vários artistas entre 1775 e 1883, todas elas em mármore de Vicenza.

Além de ser um espaço monumental muito peculiar e interessante a praça é também apropriada para atividades de lazer e é frequentada por turistas e pelos habitantes da cidade, que a apelidam apenas por Il Prato. Sobretudo durante o Verão a praça fica cheia de visitantes que caminham, patinam ou se bronzeiam.

Na envolvente da praça encontramos uma das principais igrejas da cidade, a Basílica da Abbazia Santa Giustina, que surge perfeitamente enquadrada na paisagem juntamente com o canal e as suas estátuas.

A Abbazia de Santa Giustina pertence a uma comunidade de monges beneditinos e é uma das maiores igrejas católicas de Itália, com um comprimento de 118,5m e 82m de largura. O primeiro templo foi construído naquele local em torno do século V em memória à mártir Giustina (uma personagem virgem e imaculada, com uma história de fazer chorar as pedras da calçada). Ao longo do tempo a igreja foi sofrendo diversos danos, como o terremoto de 1117 e, em 1502, foi mesmo demolida para dar lugar ao atual edifício.

A fachada frontal, que deveria ter sido revestida a mármore, provavelmente branco, nunca foi completada, tendo sido apenas coberta com cerâmico avermelhado e áspero, sem a nobreza que a Basílica merecia. Mas, para compensar, na fachada oposta foram evoluindo alguns detalhes arquitetónicos preciosos, como a torre do sino ou as oito cúpulas em mármore, que dão ao edifício a aparência de um templo bizantino.

Carlos Prestes