quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Os nómadas marroquinos

Pensávamos estar prontos para todo o tipo de experiências durante a viagem que íamos fazer até ao deserto marroquino de Erg Chebbi, mas nada nos podia preparar para momentos como aqueles que vivenciámos no contacto direto com os nómadas... famílias que optam por uma forma de vida sem destino e sem imposição de regras, preservando acima de tudo a sua liberdade.

Pode parecer uma visão algo poética desta condição mas, pelos relatos do Ahmed, o driver berbere que nos acompanhou por estas paragens, e que entende bem o espírito e a motivação destes povos, apercebemo-nos que, para eles, o mais importante é a sua condição de seres livres e donos do seu próprio destino. Rejeitam as regras a que os sistemas de comunidades ou aldeias se obrigam, e rejeitam também a própria cidadania, não se sentem marroquinos ou argelinos ou de qualquer outro país, são cidadãos livres de um deserto sem fronteiras e, naturalmente, não reconhecem qualquer legitimidade à figura do rei de Marrocos... revêm-se apenas em Alá enquanto muçulmanos devotos. 

Um dos maiores problemas daquele modo de vida, contou-nos o Ahmed, numa revelação surpreendente, é a dificuldade em fazer com que as crianças consigam ir à escola. Que coisa estranha e ao mesmo tempo tão fascinante, vidas totalmente despojadas de bens de conforto, mas conscientes da importância de levar as suas crianças à escola, para lhes abrir horizontes e dar-lhes a possibilidade de poderem fazer as suas próprias escolhas na altura certa. 

Soubemos no início do dia que nos iríamos cruzar com algumas crianças nómadas, porque o Ahmed quis levar bolos e guloseimas para lhes dar, mas não estávamos à espera de uma proximidade tão tocante, nem de uma experiência tão rica. 

Estivemos com grupos de crianças de várias famílias e em vários locais, e todas tinham aquele olhar envergonhado, com os rostos fechados e sem sorrisos. Mas tentámos quebrar o gelo e lá fomos distribuindo aquilo que trazíamos, sobretudo doces, chocolates ou barras de cereais.

E ao receberem o que lhes íamos dando, foram baixando as defesas e, envergonhadamente, lá foram esboçando alguns sorrisos, e aqueles olhos baços e carregados, com que nos olhavam, começaram a cintilar, ganhando um novo brilho e tornando-se meigos e afáveis.

Foram momentos de proximidade e de empatia, tão tocantes e genuínos, numa experiência avassaladora que deixou bem evidente que jamais iríamos conseguir esquecer aquelas crianças nómadas que o deserto nos revelou.
Photo by Marisa Martins   




Uma visão do infinito - Sul de Marrocos

Toda a zona de dunas do deserto de Erg Chebbi, no Sul de Marrocos, é rodeada por extensas planícies, igualmente secas e desertas, mas pedregosas e não com areia. Atravessar esta zona dá-nos uma sensação extraordinária de amplitude e de infinito, e o Ahmed, o simpático marroquino de origem berbere que nos conduzia, percebendo o clima de excitação que nos tinha tomado, sugeriu-nos que nos deixássemos ficar por ali algum tempo, mas sozinhos, sem a proteção do jeep nem dele próprio... desafiando assim o deserto... e desafiando-nos também a nós próprios.

E a sensação foi brutal e arrepiante, começámos por ver o jeep a se afastar e um silêncio denso a se instalar, num espaço que parecia não ter fim, e onde os únicos seres vivos que a vista alcançava éramos nós próprios, despojados de todos e quaisquer pertences, e alguns dromedários que vagueavam por ali à procura de pasto... e quanto aos seres que a vista não alcançava, imagino cobras e escorpiões, era melhor nem pensar.

Sentimos uma pequena amostra, apenas um leve sabor, daquilo que será enfrentar um espaço amplo como este, mas sem qualquer rede de segurança que nos ampare a queda. Chegámos a experimentar um ligeiro desconforto de nos vermos ali sozinhos, mas, na realidade, arriscávamos muito pouco, estávamos à distância de uma caminhada, uma simples, embora longa, caminhada, feita com uma estranha sensação entre o vibrante e o angustiante.

E no final reencontrámos o nosso jeep e o nosso porto seguro, onde o Ahmed nos esperava curioso pela reação de cada um de nós perante este pequeno desafio. Vínhamos sorridentes fazendo adivinhar que o deserto não nos tinha intimidado, mas certamente que cada um de nós se terá questionado, nem que por breves e inconfessáveis momentos, sobre a inconsciência de aceitar o desafio de deixar que o carro se afastasse... e nós ali, perdidos naquele infinito, sem nada que nos pudesse devolver ao mundo real.




domingo, 30 de julho de 2017

A melhor carne do mundo - São Miguel

Dizer que uma determinada carne pode ser a melhor do mundo é claramente um abuso de linguagem. Deveria talvez dizer que, a mim, numa determinada situação, houve um bife que me fez sentir como se estivesse a comer a melhor carne do mundo... seria mais isso, não é? 

Mas não... neste caso, não há qualquer abuso nas palavras, é mesmo a melhor carne do mundo ou, pelo menos, aquela que a mim mais me agradou. E o melhor desta história é que se trata de uma carne bem portuguesa, nascida e criada na ilha de São Miguel, em pleno arquipélago dos Açores. Ou seja, agora, além de termos o melhor do mundo a jogar à bola, também somos uma espécie de campeões mundiais em bifes. 

Provavelmente vão achar que falar sobre carnes é algo que se desenquadra completamente do tema natural deste blogue, que é vocacionado para experiências de viagem. Mas enganam-se, a gastronomia é um dos grandes prazeres de viajar e pode ser mesmo uma forma de viajarmos, não pelos países ou pelas cidades, mas pelos paladares, pelas receitas, ou pelas histórias que estão na origem de cada prato. 

Quem me dera a mim poder percorrer o mundo à procura da melhor carne. Não é que não o faça quase sempre que viajo. O problema é que precisava de chegar a destinos bem mais distantes, como a Austrália ou o Chile, ou ir até ao Japão provar um verdadeiro bife de Kobe

Embora já tenha experimentado algumas carnes afamadas, como o T-Bone Sul-Africano ou algumas peças do churrasco gaúcho, do Sul do Brasil, até agora, e até ter encontrado na ilha de São Miguel os bifes que me levaram a escrever esta crónica, o ranking das melhores carnes era liderado pelo famoso chuletón de buey aragonês, do Norte de Espanha, junto aos Pirenéus. Essa peça preciosa de carne resulta sobretudo de um corte apropriado, que faz com que juntem no mesmo naco, a costela e o lombo, e perante essa maravilha feita de parrillada, não havia bife do lombo que superasse tal iguaria. 

Mas, em 2017, não num, mas em dois restaurantes, fui surpreendido com um novo conceito de bifes. São nacos suculentos de carne do lombo, com mais de 400g (as pessoas normais dividem por dois, mas vi muitos “gordos” a devorarem a dose inteira, o que não deixa de ser uma tentação). Os bifes são ligeiramente fritos em azeite e manteiga, com louro, pimento vermelho e uns dentes de alho inteiros, ainda com pele. Devem ficar muito mal-passados, quase em sangue... não inventem com o médio e, por favor, não estraguem tudo pedindo bem-passado (se for assim, mais vale pedir outra coisa ou ir a um McDonalds). E acompanham com batatas fritas, daquelas verdadeiras, nada de batatas congeladas. E um tinto, claro, mas, que me perdoem os produtores de vinho açoriano, acho que irá muito melhor com um bom Douro. 

Parece um crime para a saúde pública, não parece? Mas é só a melhor carne que alguma vez saboreei, uma autêntica obra de arte. 

Esta pièce de résistance pode ser degustada em dois locais. No restaurante Alcides, em Ponta Delgada (Rua Hintze Ribeiro 67 - 296 629 884), e na Associação Agrícola de São Miguel, no Recinto da Feira de Rabo de Peixe (Campo de Santana, a 2 km da vila - 296 490 001). 

Não faço publicidade a estes restaurantes com qualquer interesse que não seja prestar um serviço público aos leitores mais interessados nestes temas da degustação. 

Esta publicação serve sobretudo para estimular os leitores a visitarem os Açores. E agora, para além de mil e uma razões para se fazer uma viagem até à ilha de São Miguel, deixo-vos aqui mais uma (ou duas, porque vale bem a pena experimentar os dois restaurantes... só para podermos comparar, claro). 

E, para terminar, informo que já fiz umas tentativas em casa para reproduzir este bife e que até ficou bastante bom, não igual, mas muito bom. A receita é simples, um bom naco de lombo temperado com sal grosso - não vale a pena experimentar com vazia ou outra carne qualquer - fazer um molho de azeite e manteiga em lume brando a fritar dentes de alho inteiros, levemente esmagados e ainda com pele, uma folha de louro e pimento vermelho já assado. Quando o molho está apurado aumenta-se a chama e frita-se o bife, só um bocadinho de cada lado para deixar o interior quase cru, mantendo os sucos da carne. Acompanha com batata frita ou batata assada, e vai otimamente com um bom tinto. 

E desta vez foi assim, diferente do habitual, com direito a moradas de restaurantes e até à própria receita daquela que será - eventualmente - a melhor carne do mundo. Mas mesmo que esta crónica não vos tenha aguçado o apetite, não deixem de visitar a ilha de São Miguel, que está cada vez mais bonita e mais acolhedora. 

Carlos Prestes 

sábado, 29 de julho de 2017

No mundo azul de São Miguel

Quem visita os Açores e gosta de mar, como nós gostamos, não deverá perder a oportunidade de explorar aquele oceano tão azul que banha as várias ilhas do arquipélago. 

Pode ser só um mergulho nas águas tépidas de uma das praias de calhaus ou de areia negra. Ou um simples passeio de barco que nos leve ao longo da costa, para melhor apreciarmos os contrastes cromáticos que se assinalam entre o mar e a terra. Ou podemos ir mais longe, a caminho do horizonte, na busca das espécies de baleias que ali vivem ou por ali passam nos seus trajetos migratórios. 

Mas há ainda a possibilidade mais intrusiva de mergulharmos naquelas águas, mais profundas ou só à superfície, tentando observar o mundo azul que ali se revela. 

Foi de um pouco de tudo isso que surgiu esta magnifica imagem captada na ilha de São Miguel pela minha filha Beatriz, num encontro feliz com um grupo enorme de Golfinhos Atlânticos, sempre curiosos e brincalhões, saltando e rodopiando em torno da embarcação onde nos encontrávamos.

                        Foto by Beatriz Prestes 

A interação foi tão natural e tão surpreendente que nos deixou excitadíssimos com todo aquele bailado com que nos receberam. Permanecemos o tempo que nos deixaram e teve de ser o skipper a pedir que regressássemos, porque havia ainda um longo caminho de volta até ao porto.

Mas os golfinhos não quiseram saber, não se afastaram nem pararam com as suas tropelias, pareciam estar divertidos e sem a menor intenção de nos abandonar.

E quando a despedida se tornou inevitável e tivemos de partir, ficou-nos uma sensação estranhamente nostálgica, como miúdos na ressaca de um dia de aventuras... de uma aventura inesquecível naquele admirável mundo azul.


domingo, 10 de julho de 2016

No 10 de julho, o novo dia de Portugal - Menorca

Quis o destino que tivéssemos escolhido o dia 10 de julho de 2016, para visitar as mais bonitas praias da ilha de Menorca e talvez de todo o arquipélago das Baleares. São as chamadas Playas Virgens, um conjunto de calas lindíssimas, que surgem do recorte prodigioso que contorna a costa Sul da ilha. E este dia iria ser de tal forma especial que jamais será esquecido... mas isso por outras razões e era algo que só mais tarde iríamos descobrir.

Quando consultamos folhetos turísticos que nos oferecem destinos paradisíacos, muitas vezes, ou quase sempre, as fotos promocionais são enganadoras, porque, na realidade, nada daquilo é mesmo assim. Mas em Menorca foi diferente, o cenário era mesmo fantástico, muito semelhante ao que as fotos mostravam e, ainda para melhorar, havia aquela água, que além do azul turquesa que quase encandeava, nos aguardava com uma magnífica temperatura de 26º. 

Naquela zona de reserva ecológica na costa Sul da ilha, encontram-se estas praias fantásticas, as tais Playas Virgens, que incluem a baía de Son Saura, a Cala des Talaier, Cala Turqueta e as Calas Macarella e Macarelleta. A zona estende-se por cerca de seis quilómetros que podem ser percorridos a pé através de um trilho que contorna toda a ilha e que é designado por Caminho de Cavalos ou, no idioma local, uma espécie de catalão, Cami de Cavalls. Estes acessos não são fáceis mas, para nós, as longas caminhadas não eram um problema, sobretudo porque, no final de cada percurso, éramos recebidos por enseadas lindíssimas de areia branca e pelas águas cálidas de um azul quase impossível. 

Passámos o dia inteiro a desfrutar do ambiente paradisíaco que ali se inspira, de manhã na baía de Son Saura, depois na Cala des Talaier e à tarde nCala Turqueta. E de cada caminhada que fazíamos entre praias, num dia quente como este, ficávamos de tal forma ávidos por um mergulho naquele mar transparente que, mal chegávamos ao areal, lá íamos nós, em corrida, mar adentro, que nem miúdos a saltar para a piscina. 

E nas paragens nas várias praias fizemos aquilo que se faz num sítio destes, banhos e mais banhos, nadando ao longo das enseadas, parando depois para a torrar ao sol ou aproveitando para uns momentos de leitura... foi assim que passámos este dia extraordinário, curtindo o melhor que a vida nos pode oferecer.

Ao entardecer ganhámos coragem e voltámos ao cami de cavalls, para um longo trajeto de regresso, para seguirmos depois de volta ao hotel, onde nos esperava uma noite escaldante de futebol, a mais escaldante em muitos anos, a grande final do Euro 2016. 

Aguardei pelo jogo já com o estômago embrulhado, antecipando um grande sofrimento. Era a minha sétima final (das que eu me lembro), depois de ter perdido as outras seis (cinco do Benfica e a final de 2004 com a Grécia), portanto, a probabilidade era quase de 100% a favor de mais uma derrota.

E lá chegou a hora e a história foi aquela que todos sabem . . . o fado do costume, sempre dramático, bem à portuguesa, a lesão do craque que sai em lágrimas, um guarda redes que nos salvou defendendo tudo, e depois o herói improvável, que nos deu aquela alegria imensa . . . e aqueles últimos 11 minutos até ao apito final, que nunca mais chegava.

Mas por fim o árbitro apitou mesmo e, enquanto Portugal terá explodido de alegria e exaltação coletiva, eu mal pude gritar à janela, com medo de acordar os hóspedes do hotel. Talvez por isso, tenha passado uma noite de euforia reprimida, nervoso e sem conseguir dormir... e acho até que ainda hoje me sinto engasgado.

Na manhã seguinte descemos para um pequeno almoço madrugador, felizes e orgulhosos, e ainda cheios de adrenalina pelo título da véspera, envergando a bandeira nacional, para que alemães e espanhóis se roessem de inveja (felizmente não existiam franceses). 

Faltava ainda mais um dia nas Playas Virgens e tínhamos guardado o melhor para o fim, as Calas Macarella e Macarelleta, o principal ex-libris da ilha.

E mal chegámos à praia, ainda eufóricos e orgulhosos da nossa condição de campeões europeus, e com a bandeira nacional bem visível, corremos até a beira-mar, mergulhámos e deixámo-nos ficar por ali, nadando entre as duas calas... e a imagem daquela água azul, quase arrepiante, ficou-me na memória como um dos locais mais belos que já tinha encontrado ao longo de toda uma vida, sentindo uma excitação que - e nunca saberei - seria só da beleza daquele local, ou era ainda o efeito do sonho vivido na noite anterior... essa noite mágica do 10 de julho que nos empolgou a todos e se transformou, definitivamente, num novo dia de Portugal. 

Carlos Prestes 
Julho de 2016

terça-feira, 7 de julho de 2015

Ghent - Uma cidade de chocolate

A cidade de Ghent, ou Gante (em função do idioma escolhido), é um exemplo extraordinário da arquitetura da antiga Flandres, atualmente a parte flamenga da Bélgica. Fica a pouco mais de 50 km a Oeste de Bruxelas mas, apesar de estar tão próxima da capital, a cidade não é a preferida de quem visita este país. Na verdade, a maioria dos turistas quase a ignoram, passando ao lado a caminho de Bruges, e nem imaginam o erro que estão a cometer.

Trata-se de uma cidade fantástica, verdadeiramente monumental, com um centro histórico que concentra várias igrejas imponentes e até um castelo, e que é atravessado por um único canal, que lhe dá uma configuração muito peculiar, como que uma personalidade que a diferencia de qualquer outra cidade, na Bélgica ou mesmo no resto da Europa.

Gent é a capital da província da Flandres Oriental e chegou a ser uma das cidades mais ricas e prósperas do Norte da Europa. Hoje é a terceira cidade da Bélgica, não é muito grande, mas é bastante interessante, sobretudo porque o seu esplendor arquitetónico se mantém ainda bem preservado. Além disso, é um local bem alegre e movimentado e sempre frequentado por jovens, por ser uma das mais importantes cidades universitárias belgas. 

O centro histórico não é muito grande e pode-se perfeitamente caminhar passando pelos pontos de interesse essenciais, atravessando as principais ruas e praças, e deambulando por entre monumentos e edifícios que parecem ter saído de contos de fadas. O percurso obrigatório passa pelos principais monumentos e leva-nos necessariamente à rua Sint-Michielspleis, onde é possível observar o alinhamento das três principais torres da cidade, razão pela qual lhe é dado o nome de "cidade das três torres". A primeira das torres é da Igreja de St. Nicholas, a torre seguinte é o campanário ou Belford da cidade, a maior das três, com os seus 90m de altura e, no final da rua, surge a Catedral de St. Bavo, em torno da qual terá nascido a cidade, e de onde se ergue a terceira torre.

Mas Gent é também a cidade do chocolate, o que se nota pelo aroma a cacau que se sente nas ruas e praças, onde somos brindados pela presença de chocolateries que são autênticas preciosidades, com montras de aspeto requintado e delicioso, fazendo parte da decoração, não só de cada loja, mas da própria cidade. 

Escolhemos uma das muitas chocolatarias próximas das margens do canal, a Chocolaterie Cédric Van Hoorebeke, e comprámos algumas obras de arte da chocolataria belga. Os belgas orgulham-se de produzir alguns dos melhores chocolates do mundo. Normalmente são pequenos bombons com recheios delicados e coberturas do mais fino chocolate. As lojas de chocolate são também, elas próprias, dignas de uma visita, pelo modo como expõem os bombons em vitrinas de forma quase preciosa, como se fossem jóias e estivéssemos numa ourivesaria. 

Selecionámos alguns exemplares, entre pralinés, gianduias, ganaches e outras pérolas. Escolhemos depois a esplanada de uma cervejaria, ainda junto ao canal, onde pudemos experimentar algumas das cervejas artesanais produzidas na Bélgica, com que acompanhámos os bombons que tínhamos acabado de comprar. Talvez não seja um hábito da gastronomia belga, mas está mesmo a pedir que se juntem estas duas especialidades locais, acompanhando chocolates com cerveja . . . a mim faz-me todo o sentido e é mesmo uma combinação deliciosa . . . quem não acreditar que experimente. 

E enquanto degustávamos as mais preciosas iguarias belgas, éramos envolvidos por uma paisagem lindíssima da zona do canal . . . como um porto medieval que em tempos serviu como um dos principais polos de comércio para os mercadores do Norte da Europa.

E a visão daqueles edifícios, grandiosos e encantadores, sobre as águas calmas do canal, dá-nos a ilusão de estarmos no mundo encantado dos contos de fadas. E, neste caso, as semelhanças levam-nos a um universo inspirado na casa de chocolate e guloseimas de Gretel & Hansel, levando-nos a fingir que podemos estar mesmo numa cidade encantada, uma verdadeira cidade de chocolate. 

Carlos Prestes
Julho de 2015 

domingo, 5 de julho de 2015

Uma Holanda imaginada

Quando imaginamos a Holanda como um país cheio de moinhos por toda a parte, estamos completamente enganados, não é nada assim.

Mas se procurarmos bem e fizermos a pesquisa necessária, acabamos mesmo por encontrar essa imagem do estereotipo holandês . . . uma zona rural recortada por longos canais e dezenas de moinhos junto às margens. Uma imagem sonhada que se tornou realidade quando encontrámos a aldeia de Kinderdijk, a escassos 20 km da cidade de Roterdão. 

Kinderdijk é conhecida por ser o local com a maior concentração de moinhos em toda a Holanda, o que lhe valeu o título de Património Mundial da UNESCO, ao juntar um conjunto de 19 moinhos de vento, ainda em muito bom estado, apesar de serem do longínquo século XVIII. 

Neste local não é permitido o acesso a automóveis ou motos, pelo que somos convidados a caminhar ao longo das margens do canal principal, ou a usar uma das bicicletas que lá se podem alugar. Podemos ainda passear nuns barcos que percorrem os canais fazendo sucessivas paragens. E podemos também visitar um museu sobre a história do local e um dos moinhos, que se encontra aberto a visitas turísticas. 

Assim, escolhemos fazer uma caminhada demorada pelas margens do maior canal, apreciando a beleza daquele sítio e chegando perto de alguns dos moinhos mais próximos. E, mais tarde, entrámos ainda num dos barcos e deixámos que nos levasse num passeio pelos canais mais distantes, para conseguirmos uma panorâmica mais global. 

A função destes moinhos de vento era bombar as águas dos canais para um reservatório com o objetivo de manter os níveis e evitar as cheias que sempre assolavam a Holanda. Estes moinhos funcionaram desde o século XVIII até 1927, quando foram substituídos por um conjunto de bombas. No entanto, na Segunda Guerra Mundial, com a dificuldade em conseguir combustível para alimentar essas bombas, os moinhos voltaram a funcionar, tendo então sido utilizados até aos anos 50. 

Mas o local está cheio de histórias, sobretudo anteriores à instalação dos moinhos que aqui vemos, quando a população estava à mercê dos caprichos da natureza. E a última grande cheia registada neste local é também uma história de encantar, que está na origem do próprio nome da aldeia. Segundo a lenda, em 1421, durante a maior das cheias de que havia memória, um berço com uma criança foi mantido em equilíbrio por um gato, que a encaminhou sobre as águas até à encosta de um dique, tendo assim sido salva. E é essa a razão pela qual este local foi batizado como kinderdijk - kinder, que quer dizer criança e dijk, que significa dique. 

As despedidas dos locais mais encantadores, como este, são sempre difíceis. Fica-nos, muitas vezes, uma sensação de perda. Por isso tentámos prolongar os últimos momentos, apreciando aquele ambiente bucólico de paisagens encantadas, um autêntico cartão-postal de uma Holanda imaginada.

Carlos Prestes 
Julho de 2015