domingo, 20 de maio de 2018

Alegria no Trabalho no LxFactory


Tinha acabado de passar o portão de entrada no LxFactory e reparei na existência do grande depósito de água elevado, que servirá provavelmente para o abastecimento daquele lugar, e onde se podia ler com todo o destaque a frase enigmática, e ali totalmente desprovida de contexto: “Alegria no Trabalho”. 

Uma ideia curiosa que me fez subitamente alterar a minha abordagem à visita que iria fazer àquele espaço, passando a observar sobretudo quem ali estava, não como eu ou a maioria dos visitantes, mas os que ali foram trabalhar e que eram o rosto principal de um espaço que acolhia uma multidão de visitantes naquela tarde de domingo. 

E fui assim procurar alguns casos que revelassem inequivocamente esse conceito, que é tantas vezes apenas uma miragem, de que o trabalho pode ser também uma das nossas fontes de alegria e contentamento . . . e foi com esses olhos que me fiz ao caminho. 

O LxFactory é sempre um lugar muito particular e alternativo, mas aquele era um dia ainda mais especial, com o LxRural, a feira de domingo que enche o local com pequenas tendas para venda de vários artigos, sobretudo, de artesanato. 

E tudo aquilo só era possível porque, naquela manhã, várias pessoas abdicaram das suas folgas domingueiras e para ali foram, percorrendo diferentes caminhos com um mesmo destino, cumprindo mais uma etapa das suas viagens, “essas viagens de vida que todos começámos no dia em que nascemos” . . . foram essas as palavras do Zé Pedro, um português do mundo, um viajante perpétuo, vendedor de ornamentos indígenas, que apregoava orgulhosamente como originais, trazidos diretamente das colónias de índios do Brasil, como os Pataxós, com quem partilhou algumas experiências, quando o acolheram como sendo um deles e descobriram juntos cristais e outras pedras preciosas, que vendia agora em forma de brincos. 

E mais atrás, na banca Colheita d’Óbidos, vindos do Oeste, numa viagem mais curta, ou talvez bem mais distante, muito mais enquadrados em mercados de fruta tradicionais do que em feiras alternativas, como esta, um casal de fruticultores de meia idade vendia morangos das suas próprias plantações, tentando torná-los mais apelativos ao mostrarem, com satisfação, um spray de chantili que se tinham lembrado de trazer, para agradar aos clientes. 

Na tenda do Pedro Mãos de Bigode o costureiro e vendedor, sentado à máquina de costura, ia personalizando t-shirts, aplicando bolsos e outros motivos, que transformavam cada peça de roupa num artigo com assinatura, e era bem visível a sua alegria, a sua satisfação, ao perceber o reconhecimento de quem o observava, o orgulho de ver a sua criatividade apreciada. 

E ali bem perto, no interior de uma galeria de arte, um grupo falava de algo que parecia fascinante, pelos risos, as expressões nos rostos, as conversas gesticuladas. Quase parecia uma roda de amigos, mas era certamente um curso ou um workshop. Descobri depois, quando saíram e se misturaram com a multidão, que o curso era organizado pelo Filipe, um portuense que tinha preparado os conteúdos e partilhava ali as suas experiências entusiasmantes de viajante pelo mundo, ensinando técnicas para escrita de viagens. 

E ali estava o paradigma acabado . . . o do eterno viajante, fotógrafo e escritor . . . talvez o exemplo mais evidente para ilustrar esta imagem que me inspirou ao longo daquela tarde de domingo, de que um trabalho pode muito bem ser, uma imensa e vibrante alegria. 

Carlos Prestes 

sábado, 27 de janeiro de 2018

O poder do pôr-do-sol em Marraquexe

Em 1985 a UNESCO atribuiu o título de Património Mundial Imaterial à Praça Jemaa el-Fna, elegendo, dessa forma, não apenas aquele espaço que a praça ocupa, mas sobretudo a mística que a envolve e que faz dela um lugar inesquecível. 

Foi essa a mística que nos tocou logo na primeira tarde, mal tínhamos chegado a Marraquexe e corremos para aquele local, um autêntico coração palpitante da cidade, onde todas as suas artérias desaguam.

E não quisemos esperar mais, subimos de imediato à esplanada do Café Glacier e contemplámos toda a excitação de uma praça que despertava ali bem à nossa frente. E por lá nos deixámos ficar, por lá nos demorámos. Esperámos que o sol se pusesse e que o poder da noite se instalasse... e deixámos que aquele lugar mágico nos comovesse. 

E a imagem que nos ia envolvendo revelava agora os tons quentes do sol que se encobria por detrás da Mesquita da Koutoubia... despertando aquela praça imensa e dando-lhe vida, ritmo e brilho, à medida que o sol se ia escondendo.

Carlos Prestes 
Janeiro de 2018

Voltar à página inicial

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O chá do deserto

No contacto com as famílias nómadas junto às dunas majestosas do deserto marroquino de Erg Chebbi, fomos convidados a entrar numa das suas tendas onde nos ofereceram chá e frutos secos em troca de nada, só pela hospitalidade e simpatia. 

Foi um chá diferente do habitual chá marroquino, saboroso como costuma ser o chá de menta, mas este com um significado muito especial, por nos ter sido oferecido por quem nada tem e, ainda assim, quis que nos sentíssemos bem-vindos.

E enquanto tomávamos o chá nem imaginávamos como é que conseguiriam garantir reservas de água para toda a família num local tão ermo como aquele, sem quaisquer vestígios de ribeiros ou nascentes. E só mais tarde soubemos algo surpreendente, é que o deserto de dunas contém água no seu subsolo a poucos metros de profundidade. E é a partir de poços feitos nessa zona de extensos areais que as famílias nómadas se abastecem.

E foi então que percebemos qual era o meio de transporte usado para o abastecimento de água e, sobretudo, qual era o sistema de armazenamento... confesso que foi um pouco assustador, pensar que a água do nosso chá tinha vindo daqueles garrafões... felizmente a água é bem fervida e, com sorte, terá matado toda bicheza.
Depois de algum tempo junto àquela família de nómadas, saímos do acampamento com uma sensação estranha, como se a vida daquelas pessoas nos tivesse sido revelada como um ensinamento, uma lembrança que não iríamos esquecer e que nos deveria servir de referência para alguns momentos e decisões importantes das nossas vidas.

Os nómadas marroquinos

Pensávamos estar prontos para todo o tipo de experiências durante a viagem que íamos fazer até ao deserto marroquino de Erg Chebbi, mas nada nos podia preparar para momentos como aqueles que vivenciámos no contacto direto com os nómadas... famílias que optam por uma forma de vida sem destino e sem imposição de regras, preservando acima de tudo a sua liberdade.

Pode parecer uma visão algo poética desta condição mas, pelos relatos do Ahmed, o driver berbere que nos acompanhou por estas paragens, e que entende bem o espírito e a motivação destes povos, apercebemo-nos que, para eles, o mais importante é a sua condição de seres livres e donos do seu próprio destino. Rejeitam as regras a que os sistemas de comunidades ou aldeias se obrigam, e rejeitam também a própria cidadania, não se sentem marroquinos ou argelinos ou de qualquer outro país, são cidadãos livres de um deserto sem fronteiras e, naturalmente, não reconhecem qualquer legitimidade à figura do rei de Marrocos... revêm-se apenas em Alá enquanto muçulmanos devotos. 

Um dos maiores problemas daquele modo de vida, contou-nos o Ahmed, numa revelação surpreendente, é a dificuldade em fazer com que as crianças consigam ir à escola. Que coisa estranha e ao mesmo tempo tão fascinante, vidas totalmente despojadas de bens de conforto, mas conscientes da importância de levar as suas crianças à escola, para lhes abrir horizontes e dar-lhes a possibilidade de poderem fazer as suas próprias escolhas na altura certa. 

Soubemos no início do dia que nos iríamos cruzar com algumas crianças nómadas, porque o Ahmed quis levar bolos e guloseimas para lhes dar, mas não estávamos à espera de uma proximidade tão tocante, nem de uma experiência tão rica. 

Estivemos com grupos de crianças de várias famílias e em vários locais, e todas tinham aquele olhar envergonhado, com os rostos fechados e sem sorrisos. Mas tentámos quebrar o gelo e lá fomos distribuindo aquilo que trazíamos, sobretudo doces, chocolates ou barras de cereais.

E ao receberem o que lhes íamos dando, foram baixando as defesas e, envergonhadamente, lá foram esboçando alguns sorrisos, e aqueles olhos baços e carregados, com que nos olhavam, começaram a cintilar, ganhando um novo brilho e tornando-se meigos e afáveis.

Foram momentos de proximidade e de empatia, tão tocantes e genuínos, numa experiência avassaladora que deixou bem evidente que jamais iríamos conseguir esquecer aquelas crianças nómadas que o deserto nos revelou.
Photo by Marisa Martins   




Uma visão do infinito - Sul de Marrocos

Toda a zona de dunas do deserto de Erg Chebbi, no Sul de Marrocos, é rodeada por extensas planícies, igualmente secas e desertas, mas pedregosas e não com areia. Atravessar esta zona dá-nos uma sensação extraordinária de amplitude e de infinito, e o Ahmed, o simpático marroquino de origem berbere que nos conduzia, percebendo o clima de excitação que nos tinha tomado, sugeriu-nos que nos deixássemos ficar por ali algum tempo, mas sozinhos, sem a proteção do jeep nem dele próprio... desafiando assim o deserto... e desafiando-nos também a nós próprios.

E a sensação foi brutal e arrepiante, começámos por ver o jeep a se afastar e um silêncio denso a se instalar, num espaço que parecia não ter fim, e onde os únicos seres vivos que a vista alcançava éramos nós próprios, despojados de todos e quaisquer pertences, e alguns dromedários que vagueavam por ali à procura de pasto... e quanto aos seres que a vista não alcançava, imagino cobras e escorpiões, era melhor nem pensar.

Sentimos uma pequena amostra, apenas um leve sabor, daquilo que será enfrentar um espaço amplo como este, mas sem qualquer rede de segurança que nos ampare a queda. Chegámos a experimentar um ligeiro desconforto de nos vermos ali sozinhos, mas, na realidade, arriscávamos muito pouco, estávamos à distância de uma caminhada, uma simples, embora longa, caminhada, feita com uma estranha sensação entre o vibrante e o angustiante.

E no final reencontrámos o nosso jeep e o nosso porto seguro, onde o Ahmed nos esperava curioso pela reação de cada um de nós perante este pequeno desafio. Vínhamos sorridentes fazendo adivinhar que o deserto não nos tinha intimidado, mas certamente que cada um de nós se terá questionado, nem que por breves e inconfessáveis momentos, sobre a inconsciência de aceitar o desafio de deixar que o carro se afastasse... e nós ali, perdidos naquele infinito, sem nada que nos pudesse devolver ao mundo real.




domingo, 30 de julho de 2017

A melhor carne do mundo - São Miguel

Dizer que uma determinada carne pode ser a melhor do mundo é claramente um abuso de linguagem. Deveria talvez dizer que, a mim, numa determinada situação, houve um bife que me fez sentir como se estivesse a comer a melhor carne do mundo... seria mais isso, não é? 

Mas não... neste caso, não há qualquer abuso nas palavras, é mesmo a melhor carne do mundo ou, pelo menos, aquela que a mim mais me agradou. E o melhor desta história é que se trata de uma carne bem portuguesa, nascida e criada na ilha de São Miguel, em pleno arquipélago dos Açores. Ou seja, agora, além de termos o melhor do mundo a jogar à bola, também somos uma espécie de campeões mundiais em bifes. 

Provavelmente vão achar que falar sobre carnes é algo que se desenquadra completamente do tema natural deste blogue, que é vocacionado para experiências de viagem. Mas enganam-se, a gastronomia é um dos grandes prazeres de viajar e pode ser mesmo uma forma de viajarmos, não pelos países ou pelas cidades, mas pelos paladares, pelas receitas, ou pelas histórias que estão na origem de cada prato. 

Quem me dera a mim poder percorrer o mundo à procura da melhor carne. Não é que não o faça quase sempre que viajo. O problema é que precisava de chegar a destinos bem mais distantes, como a Austrália ou o Chile, ou ir até ao Japão provar um verdadeiro bife de Kobe

Embora já tenha experimentado algumas carnes afamadas, como o T-Bone Sul-Africano ou algumas peças do churrasco gaúcho, do Sul do Brasil, até agora, e até ter encontrado na ilha de São Miguel os bifes que me levaram a escrever esta crónica, o ranking das melhores carnes era liderado pelo famoso chuletón de buey aragonês, do Norte de Espanha, junto aos Pirenéus. Essa peça preciosa de carne resulta sobretudo de um corte apropriado, que faz com que juntem no mesmo naco, a costela e o lombo, e perante essa maravilha feita de parrillada, não havia bife do lombo que superasse tal iguaria. 

Mas, em 2017, não num, mas em dois restaurantes, fui surpreendido com um novo conceito de bifes. São nacos suculentos de carne do lombo, com mais de 400g (as pessoas normais dividem por dois, mas vi muitos “gordos” a devorarem a dose inteira, o que não deixa de ser uma tentação). Os bifes são ligeiramente fritos em azeite e manteiga, com louro, pimento vermelho e uns dentes de alho inteiros, ainda com pele. Devem ficar muito mal-passados, quase em sangue... não inventem com o médio e, por favor, não estraguem tudo pedindo bem-passado (se for assim, mais vale pedir outra coisa ou ir a um McDonalds). E acompanham com batatas fritas, daquelas verdadeiras, nada de batatas congeladas. E um tinto, claro, mas, que me perdoem os produtores de vinho açoriano, acho que irá muito melhor com um bom Douro. 

Parece um crime para a saúde pública, não parece? Mas é só a melhor carne que alguma vez saboreei, uma autêntica obra de arte. 

Esta pièce de résistance pode ser degustada em dois locais. No restaurante Alcides, em Ponta Delgada (Rua Hintze Ribeiro 67 - 296 629 884), e na Associação Agrícola de São Miguel, no Recinto da Feira de Rabo de Peixe (Campo de Santana, a 2 km da vila - 296 490 001). 

Não faço publicidade a estes restaurantes com qualquer interesse que não seja prestar um serviço público aos leitores mais interessados nestes temas da degustação. 

Esta publicação serve sobretudo para estimular os leitores a visitarem os Açores. E agora, para além de mil e uma razões para se fazer uma viagem até à ilha de São Miguel, deixo-vos aqui mais uma (ou duas, porque vale bem a pena experimentar os dois restaurantes... só para podermos comparar, claro). 

E, para terminar, informo que já fiz umas tentativas em casa para reproduzir este bife e que até ficou bastante bom, não igual, mas muito bom. A receita é simples, um bom naco de lombo temperado com sal grosso - não vale a pena experimentar com vazia ou outra carne qualquer - fazer um molho de azeite e manteiga em lume brando a fritar dentes de alho inteiros, levemente esmagados e ainda com pele, uma folha de louro e pimento vermelho já assado. Quando o molho está apurado aumenta-se a chama e frita-se o bife, só um bocadinho de cada lado para deixar o interior quase cru, mantendo os sucos da carne. Acompanha com batata frita ou batata assada, e vai otimamente com um bom tinto. 

E desta vez foi assim, diferente do habitual, com direito a moradas de restaurantes e até à própria receita daquela que será - eventualmente - a melhor carne do mundo. Mas mesmo que esta crónica não vos tenha aguçado o apetite, não deixem de visitar a ilha de São Miguel, que está cada vez mais bonita e mais acolhedora. 

Carlos Prestes 

sábado, 29 de julho de 2017

No mundo azul de São Miguel

Quem visita os Açores e gosta de mar, como nós gostamos, não deverá perder a oportunidade de explorar aquele oceano tão azul que banha as várias ilhas do arquipélago. 

Pode ser só um mergulho nas águas tépidas de uma das praias de calhaus ou de areia negra. Ou um simples passeio de barco que nos leve ao longo da costa, para melhor apreciarmos os contrastes cromáticos que se assinalam entre o mar e a terra. Ou podemos ir mais longe, a caminho do horizonte, na busca das espécies de baleias que ali vivem ou por ali passam nos seus trajetos migratórios. 

Mas há ainda a possibilidade mais intrusiva de mergulharmos naquelas águas, mais profundas ou só à superfície, tentando observar o mundo azul que ali se revela. 

Foi de um pouco de tudo isso que surgiu esta magnifica imagem captada na ilha de São Miguel pela minha filha Beatriz, num encontro feliz com um grupo enorme de Golfinhos Atlânticos, sempre curiosos e brincalhões, saltando e rodopiando em torno da embarcação onde nos encontrávamos.

                        Foto by Beatriz Prestes 

A interação foi tão natural e tão surpreendente que nos deixou excitadíssimos com todo aquele bailado com que nos receberam. Permanecemos o tempo que nos deixaram e teve de ser o skipper a pedir que regressássemos, porque havia ainda um longo caminho de volta até ao porto.

Mas os golfinhos não quiseram saber, não se afastaram nem pararam com as suas tropelias, pareciam estar divertidos e sem a menor intenção de nos abandonar.

E quando a despedida se tornou inevitável e tivemos de partir, ficou-nos uma sensação estranhamente nostálgica, como miúdos na ressaca de um dia de aventuras... de uma aventura inesquecível naquele admirável mundo azul.