segunda-feira, 9 de abril de 2012

Teatro Romano - Verona


A cidade de Verona, como a maioria das cidades italianas, tem uma enorme influência da civilização romana, neste caso com vestígios muito presentes, como na Arena di Verona e no Teatro Romano.

Foi justamente pelo Teatro Romano e pelo Museo Archeologico que começámos a nossa visita a esta cidade do Norte de Itália.

Construído nas encostas da colina de San Pietro no século primeiro aC, mantém ainda hoje grande parte do auditório do teatro original, bem como vários arcos de galerias e restos significativos do palco.

O Teatro Romano é o edifício mais antigo de Verona, mas, apesar disso, é utilizado ainda hoje para alguns espetáculos e festivais durante o Verão, como é o caso do Festival Shakespeare e do Festival de Jazz de Verona.
Numa posição mais elevada sobre o anfiteatro surge o Museu Arqueológico, localizado no antigo convento de San Girolamo. O museu contém centenas de achados arqueológicos daquele local, que visitámos com todo o interesse e atenção, mas sem qualquer emoção.

Na verdade, para mim, o acesso àquela zona do site arqueológico constituiu sobretudo uma oportunidade para contemplar a paisagem fantástica que dali nos é oferecida, com uma vista panorâmica sobre o teatro, mas também sobre as casas e monumentos da zona medieval da cidade, que cresceu junto às margens do rio Adige, com a sua ponte mais antiga, a Ponte Pietra. Uma ponte romana em arcos construída no ano 100 aC e que nos leva, ainda hoje, a uma das portas de entrada no centro histórico da cidade.

Durante a Segunda Guerra Mundial foram explodidos propositadamente alguns arcos da ponte para, desta forma, fazer recuar as tropas alemãs. Com o fim da guerra a ponte foi reconstruída em 1957, com os materiais originais e, até hoje, mantém-se acessível como ponte pedonal.
Mais tarde, atravessámos a Ponte Pietra e fomos conduzidos até ao coração do centro medieval da cidade, com ruelas labirínticas e casas nos tons de ocre ou de terracota, tão habituais em Itália… como quem faz uma fascinante viagem no tempo e regressa à Idade Média.

Carlos Prestes

domingo, 8 de abril de 2012

O refeitório do mestre Da Vinci - Milano


O próximo percurso na cidade de Milão levou-nos a uma das joias históricas desta cidade, a Igreja Santa Maria delle Grazie. A Igreja, e o Convento Dominicano, estão classificados como Património Mundial da UNESCO, não tanto pelos encantos do próprio templo, mas apenas porque, na parede do refeitório do convento, se encontra uma das obras de arte mais célebres de todo o mundo, o fresco de "A Última Ceia" pintado por Leonardo da Vinci, entre 1495 e 1498.
O fresco do mestre Da Vinci tem estado sujeito a séculos de deterioração o que tem justificado diversas intervenções para restauração. A mais recente foi em 1999, já com recurso aos métodos científicos mais evoluídos naquela altura, o que permitiu a recuperação das cores originais e a remoção dos vestígios de tinta aplicada em tentativas anteriores de restauro.

Desde essa última recuperação da pintura, para assegurar a sua preservação à temperatura ambiente, o acesso a visitantes passou a ser limitado a grupos até 25 pessoas em cada 15 minutos. Desta forma, a visita a este local passou a ser algo quase inacessível, obrigando a uma reserva com várias semanas de antecedência. Ainda assim, este monumento recebe mais de nove milhões de visitantes por ano, que usufruem de uma visita guiada à igreja Santa Maria delle Grazie e, sobretudo, têm direito a uma breve passagem pelo refeitório onde comtemplam a obra-prima do mestre Da Vinci... e têm ainda acesso a vários esboços prévios que permitem conhecer de que forma Da Vinci evoluiu entre as suas primeiras ideias e o afresco final.

Esta procura massiva por parte de turistas vindos de todo o mundo foi altamente potenciada na época de sucesso do best seller de Dan Brown, O Código Da Vinci, onde A Última Ceia surge como um dos elementos simbólicos para o desenlace da trama.

Mesmo que se consiga marcação para visitar o refeitório, não nos é permitido tirar fotos, nem sem flash. No entanto, depois da visita, podemos entrar na loja do museu com todo o merchandising relacionado com Da Vinci e com A Última Ceia, onde tivemos oportunidade de ver todo o tipo de reproduções, desde porta-chaves a postais e posters, o que nos permitiu tirar uma foto semelhante às  que tiraríamos em pleno refeitório.
Para além de todos os símbolos que têm a ver com a existência dissimulada de Maria Madalena entre os apóstolos, cuja análise e especulação rendeu a Ban Brown vários milhões de dólares, a mim chamou-me a atenção a bizarria de alguém ter aberto uma porta atravessando a pintura por baixo da mesa, tal a necessidade de improvisar uma nova arrecadação para o refeitório… temos aqui uns quilos de arroz para guardar, faz-se uma porta debaixo de Jesus Cristo e cria-se uma despensa muito jeitosa… parece sensato!

Carlos Prestes


La Scala di Milano


Entrando nas Gallerias Vittorio Emanuele pela Piazza Duomo, saímos do lado oposto na Piazza della Scala, com a estátua de Leonardo da Vinci bem ao centro, com um dos lados ocupado pelo Palazzo Marino, onde funciona a Comune di Milano e, no lado oposto, com o famosíssimo Teatro alla Scala.

O Scala de Milano é um edifício neoclássico que não deixa ninguém deslumbrado pela sua arquitetura, porque o seu verdadeiro esplendor está no interior, com uma bela sala em forma de ferradura que sempre foi, e é ainda hoje, um dos palcos mais emblemáticos para os grandes espetáculos de ópera, e não só, além da temporada lírica, recebem também espetáculos de ballet e de orquestras sinfónicas. 

Foi por este palco que passaram as figuras maiores do canto lírico de todos os tempos, como Luciano Pavarotti ou Maria Callas… interpretando as grandes óperas intemporais, desde logo as italianas, de Verdi ou Rossini, mas também outros clássicos, como os de Mozart. E é aqui que ainda hoje desfilam os grandes cantores líricos da atualidade… não lhes conheço os nomes nem as suas competências, mas têm desde logo uma grande vantagem face àqueles que mencionei, que é o facto de estarem vivos.
Mas toda esta conversa sobre as grandes performances serve apenas para valorizar o lastro histórico desta sala de espetáculos e não para recomendar aos leitores que assistam a uma destas apresentações, porque seria até obsceno. Para que este blog possa estar devidamente atualizado consultei os preços atuais, para as óperas anunciadas nesta temporada, no final de 2016. Escolhendo uma plateia, primeiro balcão ou uma frisa no primeiro nível de camarotes, basicamente os únicos lugares que podem ser considerados como bons lugares, o preço por pessoa é quantia redonda de 500€. Ou seja, a ópera já não é algo muito acessível ao cidadão comum, mas muito menos no Teatro alla Scala.

Mas como quem não tem cão caça com gato, há uma alternativa bem mais razoável de fazer a visita turística ao museu do teatro, ao hall principal e ao próprio salão do auditório, neste caso a partir de um dos camarotes, pela modesta quantia de 7€ por pessoa. A visita torna-se interessante, mas há que confirmar se não estarão a ocorrer ensaios, porque, nesse caso, não é possível visitar o auditório, que é justamente a principal motivação para fazer esta visita... e são apenas breves segundos, lá do alto de um camarote, mas que nos fazem absorver a inspiração de todo um lastro de séculos de história que aquela sala testemunhou.

Carlos Prestes


Gallerias Vittorio Emanuele - Milano


Em plena Piazza Duomo encontramos as requintadíssimas Gallerias Vittorio Emanuele onde se concentram algumas lojas das marcas mais luxuosas do mundo da moda.

Entrámos e atravessámos as galerias bem devagar, contemplando e usufruindo do ambiente extraordinário que ali se encontra, numa verdadeira representação do glamour italiano.

Para apreciar toda aquela tentação, arriscámos mesmo uma pausa demorada num dos cafés mais chiques da galeria, o café Gucci, onde nos deixámos ficar apreciando o palpitar daquele espaço, que é bem mais do que um conjunto de galerias comerciais. Trata-se de um verdadeiro colosso artístico e arquitetónico e que funciona como um autêntico templo do requinte e do luxo, e que é também uma marca da cidade e dos seus habitantes.

As galerias são uma homenagem ao antigo rei de Itália durante o século XIX, Vittorio Emanuele II, também apelidado pelos italianos como o Pai da Pátria, por ter unificado a Península Itálica. O complexo foi construído no final do século XIX e é formado por duas galerias dispostas perpendicularmente, que se cruzam numa praça central coberta por uma enorme e majestosa cúpula envidraçada. A galeria principal, com cerca de 200m, foi concebida como um corredor coberto para ligar a Piazza Duomo à Piazza della Scala, a meio da qual se dá a interceção com a galeria secundária, com 100m de comprimento.

O espaço é conhecido pelos habitantes da cidade como “Il salotto di Milano”, ou seja, a sala de estar dos milaneses, devido ao ambiente chique e acolhedor dos cafés e restaurantes que se estendem em esplanadas ao longo do pavimento exterior, sempre coberto pelas magníficas cúpulas revestidas a vidro, e forrado com uma seleção de mármores decorativos com grande requinte. Atualmente, esses restaurantes e cafés são sobretudo polos de concentração de turistas, mas são ainda os mesmos desde a abertura das galerias, e são por isso verdadeiros clássicos desta cidade.

Carlos Prestes

Il Duomo di Milano


Milão é a maior cidade da Lombardia e de todo o Norte de Itália, e constitui uma zona industrial que é um dos motores da economia italiana com pontos fortes no comércio, indústria e finanças. Destaca-se, por exemplo, por ser a cidade da Bolsa de Valores italiana e a sede dos maiores bancos e maiores empresas nacionais. Mas a cidade é também conhecida por ser uma das capitais mundiais da moda e do design, com importantes eventos e feiras internacionais, e é também uma das cidades onde o futebol se vive de forma mais intensa, com dois clubes locais no topo da Europa do futebol, o AC Milan e FC Internazionale, com as rivalidades habituais entre clubes da mesma cidade.

Mas para além de tudo isto, se quisermos identificar um símbolo maior da cidade, quase como uma marca da sua imagem para o exterior, eu escolheria a magnífica Piazza Duomo, com a sua catedral majestosa, Il Duomo di Milano.

A piazza concentra uma oferta tão distinta que nos deslumbra, sem sabermos por onde começar. Ficámos desta vez na própria praça, junto à Estátua Equestre a Vittorio Emanuele II, observando o palpitar daquele espaço com o seu movimento de turistas e habitantes, e à nossa volta somos rodeados por uma galeria de edifícios históricos que quase nos esmaga de tanta grandeza.

E num dos lados ergue-se o próprio Duomo, a catedral da cidade, um dos edifícios mais célebres e complexos em estilo gótico de toda a Europa, e também um dos maiores, com 157m de comprimento e 109m de largura, só superado em todo o mundo, pela Catedral de Sevilha e pela Basílica de São Pedro no Vaticano.

A sua construção começou em 1386 por iniciativa do arcebispo Antonio da Saluzzo, num estilo gótico de influência francesa, e foi executada de trás para a frente, começando por integrar a Basílica de Santa Maria Maggiore, que foi sendo demolida por partes e que funcionou durante séculos como fachada provisória do Duomo. Nessa época medieval, o estaleiro de construção da catedral era um dos maiores da Europa, trazendo a Milão centenas de escultores, engenheiros, arquitetos e artesãos de todo o continente europeu.

Os alçados são dominados por 135 agulhas de mármore, cada uma com uma estátua no seu pináculo, como um autêntico museu de esculturas a céu aberto. E foi com a conclusão da agulha mais alta, em meados do século XVIII, que a catedral foi concluída, quando finalizaram a parte superior da cúpula, onde foi colocada a estátua da Madoninna, a Nossa Senhora, a quem foi dedicada a nova catedral da cidade. A estátua Madonnina, feita de bronze e folheada a ouro, surge brilhante sobre a piazza do alto da agulha maior do Duomo, que durante alguns séculos era mesmo o ponto mais alto da cidade.
No seu interior, perto dos portões da entrada, é visível no chão uma Meridiana, constituída por um friso de cobre que divide a catedral entre as naves direita e esquerda, decorada com os signos do zodíaco. É a Meridiana do Duomo, um calendário e relógio solar, colocada na catedral no final do século XVIII quando foi instituída uma reforma das horas que impunha a necessidade de se calcular com precisão o meio-dia solar. Assim, diariamente, ao meio-dia, um raio de luz entra por um furo minúsculo colocado no teto da nave direita e bate na meridiana marcando a hora e o período do mês. No entanto, são poucos os turistas que entram no Duomo de Milão e, ao atravessar a porta, reparam naquele longo friso dourado no pavimento, decorado com os signos do zodíaco.

Uma outra curiosidade resulta de uma lenda que refere a existência na catedral de um dos três pregos sagrados da cruz de Jesus Cristo, doado à cidade pela imperatriz Helena, mãe do imperador Constantino, no século IV, na época em que era imperador de Roma e a capital era Milão. O prego fica no relicário da catedral, onde uma luz vermelha o identifica. Todos os anos, no segundo sábado de setembro, o Cardeal Arcebispo de Milão sobe no interior de uma estrutura que parece uma nuvem, retira o prego e deixa-o depois exposto por dois dias para a admiração dos fiéis. 

No entanto, e para que conste, apesar de terem existido (alegadamente) apenas três pregos sagrados da cruz de Cristo, existem pelo mundo fora mais de vinte igrejas que reclamam ter lá um deles, e que será certamente genuíno... ou, neste caso, jesuíno!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sinais da boémia parisiense

Ao longo dos anos tive a oportunidade de visitar a capital francesa mais de uma dezena de vezes e, por isso, fui conhecendo os mais diversificados pontos de interesse que a cidade nos pode oferecer e todo o tipo de emoções que podem ser experimentadas . . . basta procurar, como quem escolhe num menu.

E, neste caso, vou-me concentrar apenas nas experiências vividas nos principais locais de vida noturna e da boémia parisiense mas, sendo assim, não posso, de todo, limitar-me a uma única foto, pelo que vou juntar várias fotos que vão ilustrando as diferentes histórias.

E vou começar pela Rive Gauche, na margem esquerda do rio Sena, é o coração da noite parisiense, o chamado Quartier Latin fica localizado entre a Ile de la Cité, onde se ergue a majestosa Notre-Dame, e a Université Paris-Sorbonne, incluindo alguns locais de grande animação, entre as ruelas mais apertadas e mais típicas e os elegantes Boulevards Saint-Germain e Saint-Michel

Nesta zona conheci alguns locais de animação noturna, para além das próprias ruas do Quartier Latin, sempre agitadas quando a noite cai. E dos muitos restaurantes e bares que por ali se encontram, vou deixar o registo da minha experiência no Café Le Procope, um restaurante que é também um marco da história e da cultura da cidade de Paris. Foi fundado em 1686 e é mesmo o restaurante mais antigo de todo mundo que ainda está em atividade. A experiência é requintada, talvez até em excesso, mas não se pode pensar que estamos apenas num café ou restaurante. Aquele jantar, numa noite de Inverno de 1996, foi muito para além de uma experiência gastronómica fantástica, que me levou a provar diferentes lotes de ostras, com vinhos brancos, que iam chegando à mesa na sequência apropriada a cada fase da degustação. Isso é muito bom - claro que é - mas neste restaurante não é isso que mais impressiona. O que mais me marcou foi a possibilidade de usufruir de um ambiente impregnado da história e cultura parisienses, que se respira em cada sala e em cada recanto. Percebe-se, pelas referências, que o espaço foi frequentado por grandes vultos das épocas mais marcantes da história francesa, como Napoleão Bonaparte e outras figuras ilustres do período da Révolution Française. 

O Le Procope está também associado ao conceito dos chamados cafés literários (como acontece com o nosso Martinho da Arcada), com a presença registada de alguns dos mais ilustres escritores, dramaturgos e pensadores franceses, como Molière, Voltaire ou Honoré de Balzac. Já mais tarde, na segunda metade do século XX, o Procope era o local preferido para as tertúlias entre intelectuais parisienses, como Simone de Beauvoir ou Jean-Paul Sartre.
Mas quando penso nesta experiência, fico sempre sem saber o que mais me terá emocionado naquele local . . . se a sensação de respirar um ambiente com um lastro histórico e cultural incalculável . . . ou se terão sido antes os deliciosos crêpes flambées au grand marnier


Depois de jantar, qualquer que seja o restaurante escolhido, impõe-se um passeio até à rue de la Huchette, já bem próxima da margem esquerda do Sena, para uma visita à cave do nº5, o Le Caveau de la Huchette. Trata-se de um clube de Jazz recriando um ambiente, quase autêntico, dos anos 50, com uma banda a tocar um som ritmado e bem dançável, e com o salão cheio de dançarinos, que vão ensaiando os seus melhores passos de dança, embalados pelos ritmos contagiantes do swing. O ambiente é giríssimo, funciona como nos antigos salões de baile, com os homens a procurarem as suas parceiras em plena pista de dança nos intervalos das músicas . . . muito old school. E até eu, que tenho uns pezinhos para dançar que mais parecem duas mesinhas de cabeceira, lá me fiz à vida e também dei o meu pé-de-dança . . . terá sido uma noite muito má para aquele clube! Mas a experiência foi fantástica. 


Ainda sem sair do Quartier Latin, recomendo um passeio ao longo da margem esquerda do rio, até à Pont des Arts. Passear pelas margens do Sena é sempre uma experiência encantadora, mas, naquela zona e durante a noite, a paisagem revela-se ainda mais bonita, com as imagens dos edifícios iluminados da Ile de la Cité . . . e a grande catedral, sempre presente, sempre dominante.

Mais à frente surge então a Pont des Arts, uma ponte pedonal que atravessa o rio levando-nos diretamente até às portas do Louvre, que se transformou num local de concentração de jovens, que por ali ficam, pela noite fora, sentados no pavimento de madeira, só na conversa, ou tocando viola e cantando, e - claro - sempre bebendo e fumando, sabe-se lá o quê.
Os guarda-corpos da ponte foram sendo preenchidos com milhares dos chamados “cadeados do amor”, num gesto escolhido por muitos casais de namorados, para selar a sua paixão, prendendo à ponte um cadeado que simboliza a ligação entre eles e deitando depois a chave ao rio, garantindo, dessa forma, que essa ligação jamais se irá romper . . . mas é bom que não confiem apenas nos cadeados e façam mais alguma coisa no dia-a-dia para manter a relação forte e unida - digo eu. Mas, mais recentemente, por motivos de segurança (tanto da própria ponte como dos barcos que passam por baixo) os cadeados foram retirados e lá se foram as juras de amor eterno. 
Mas com cadeados ou sem eles, esta ponte deverá ser sempre um local de visita obrigatória, não encontraremos sinais da típica boémia parisiense, mas descobriremos outras motivações para uma noite bem agradável. 


Saltando agora para outro dia e para um outro local da boémia noturna, depois de um percurso de Metro até à estação de Anvers, chegamos à igreja do Sacré Cœur e ao bairro de Montmartre. Escolhendo o final da tarde para chegar a esta zona, podemos observar o anoitecer na Place du Tertre, a imensa galeria de arte a céu aberto, onde dezenas de pintores tentam ganhar a vida fazendo retratos ou caricaturas aos turistas que vão passando. Ao entardecer observa-se cada um deles a desmontar os seus cavaletes e a arrumar tintas e pincéis, e a praça vai ficando vazia, de pintores e de turistas, e as casas, cafés e restaurantes, vão-se mostrando finalmente de forma genuína. E podemos ainda acompanhar as vistas magnificas sobre a cidade que os miradouros daquele local oferecem, e as imagens da igreja do Sacré Cœur, sempre extraordinariamente belas.

Quando a noite cai podemos então caminhar até à zona de maior concentração de atrações noturnas, junto à Place Pigalle, percorrendo toda a Rue Lepic. No nº15 desta rua vamos encontrar um outro espaço de referência, o Café des Deux Moulins. Aparentemente é só mais um bar ou café de bairro, que se transforma num bistrô que também serve refeições e onde podemos parar para um jantar rápido e ligeiro. Mas este local é bem mais do que isso, para mim, é sobretudo importante por ter sido palco de um dos filmes franceses de referência o Le fabuleux destin d'Amélie Poulain.


A escassos 300m chegamos depois ao Boulevard de Clichy, que nos leva entre a Place Pigalle e a Place Blanche, numa zona onde nos cruzamos com vários tipos de estabelecimentos de diversão noturna mais da pesada, onde abundam as sex shops e os night clubs. Mas foi já em plena Place Blanche que encontrei o local escolhido para passar um serão diferente, assistindo a um espetáculo numa das casas de diversões mais antigas e mais importantes da cidade, o Moulin Rouge

É um verdadeiro cabaré tradicional, construído no final do século XIX, onde podemos assistir a espetáculos que continuam a recriar o ambiente boémio da Belle Époque. Mas, para mim, também o Moulin Rouge é bem mais do que um cabaré parisiense, é acima de tudo o magnifico cenário de uma das produções de cinema mais arrojadas . . . e que, mesmo sendo um musical, consegue ser um enorme filme. 

Estas foram apenas algumas experiências que aqui partilho para inspirar quem quiser conhecer a noite da capital francesa, com vários sinais da boémia parisiense, dos mais antigos e recheados de história, aos mais espontâneos e mais atuais. Tudo se consegue encontrar . . . é emoção à la carte ao mais alto nível. 

Carlos Prestes 

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domingo, 5 de setembro de 2010

No esplendor da noite - We'll always have Paris

Todo o esplendor monumental que a cidade de Paris oferece a quem a visita, com os seus magníficos edifícios, palácios e museus, adquire, durante a noite, uma nova face, quando os monumentos e as avenidas se iluminam, e nos proporcionam uma imagem diferente desta cidade, mas nem por isso menos bonita.

Mas para encontrarmos esta nova perspetiva da capital francesa é preciso estarmos disponíveis para percorrer os mesmos locais que visitámos durante o dia, depois da noite ter caído e o céu escurecido, com a curiosidade de quem procura uma cidade diferente, mais autêntica e mais sedutora, muito mais próxima do verdadeiro sentido do nome por que é conhecida... “A Cidade da Luz”, com milhões de pontos luminosos, definindo os contornos de um local que é assim ainda mais magnifico. 

Paris não é bem aquela cidade onde se ganhe muito em interagir com quem lá mora, o contacto pessoal não é claramente um dos seus pontos fortes. E, por isso, à noite, quando a cidade perde os seus habitantes e faz surgir apenas alguns dos seus vultos que mal se reconhecem na escuridão, Paris pode ser mais genuína, e ser realmente aquilo que ela é... uma cidade modelo, a mais bela de todas as cidades... é assim que vejo Paris quando penso apenas na sua arquitetura e na sua estética, um local esteticamente prodigioso. 

E são sempre esses passeios noturnos que mais me agradam, percorrer uma cidade deslumbrante, sem procurar a sua palpitação, mas apenas em busca da sua beleza . . . a beleza e o brilho das suas jóias principais. São os grandes boulevards com edifícios monumentais bem iluminados, autênticos palácios reais em dias de festa, que vão surgindo em cada quarteirão. São as preciosidades que a cidade vai mostrando, como o imponente arco, triunfando no topo da grande avenida, ou as margens de um rio, que à noite são ainda mais bucólicas e inspiradoras, com cada ponte a surgir brilhante, como uma peça de arte que ornamenta o trajeto das águas. 

E depois há sempre o encontro com a grande torre, tão cansada de carregar milhões de visitantes à luz do dia, ergue-se à noite como um símbolo maior do encantamento com que esta cidade sempre nos comove. 

E por muitas que sejam as viagens que que vou fazendo à cidade de Paris, angustiam-me sempre as despedidas... mas sei que o regresso será inevitável, tem sido sempre assim e assim continuará a ser... por muitos mundos que se conheçam, esta é uma cidade que sempre me irá atrair para uma próxima visita... recordando-me a frase imortal de Humphrey Bogart para Ingrid Bergman, numa das despedidas mais célebres da história do cinema... we'll always have Paris

Carlos Prestes 
Agosto de 2010